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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DUPLA FALTA, UM ROMANCE DE LIONEL SHRIVER


Dos esportes de alto rendimento, talvez o tênis seja aquele que mais se aproxima do xadrez. Principalmente quando o que está em disputa é a loucura. Assim como os enxadristas, os tenistas costumam marcar encontro com os "fantasmas" nas horas mais impróprias. O estrago é monumental. Raramente sobra alguma coisa inteira. Destroços, ruínas, o lixo todo espalhado pelos quatro cantos do cérebro. Como recompensa, derrotas inesquecíveis. Daquelas que nem mesmo o mais sagaz dos psicólogos consegue explicar.

O romance "Dupla Falta", escrito por Lionel Shriver, está centralizado na história de dois tenistas que competem entre si. De um lado da rede, Wilhemena (Willy) Novinski; do outro, Eric Oberdorf. Bolas disparam por todos os lados, numa velocidade assustadora − o objetivo da saraivada não é marcar os pontos necessários para garantir a trilogia sagrada do tênis (game, set, match), mas algo mais terrível: aniquilar o adversário. Não sobra espaço para lobbys ou deixadinhas, paralelas ou voleios. Todas as jogadas se caracterizam pelo uso irrestrito da força bruta, da agressão mecânica, devastadora.

Quando Willy conhece Eric, ele era um tenista amador, sem muito futuro. Ela, ao contrario, estava em indiscutível ascensão profissional. Depois de um namoro sem grandes obstáculos, casamento. Alguns meses depois, o que deveria ser uma história estável se transforma em toneladas de ressentimento e quilômetros de distanciamento afetivo. O motivo? A melhora considerável do jogo de Eric. E isso influi significativamente no rendimento de Willy, que despenca no ranking de forma sensacional. Quase bate recordes de velocidade ladeira abaixo. É patético.

Parte da explicação para esses acontecimentos está na forma com que cada um dos protagonistas se relaciona emocionalmente com o jogo. Enquanto Willy coloca em quadra a própria vida, Eric joga ludicamente. Para Willy, que alimenta o desejo de ser uma espécie de máquina esportiva, cada derrota equivale a uma espécie de amputação, a parte perdida latejando intermitentemente. Eric, para usar a terminologia administrativa capitalista, é "apenas" competente. Além disso, não acredita na existência de diferenças significativas entre ganhar ou perder – se os seus resultados não forem bons, ele fará outra coisa, talvez ministrar aulas, pois possui um diploma universitário (matemática).

As tensões aumentam e o casamento naufraga. A trilogia mágica (egoísmo, mágoa e má consciência) faz o trabalho sujo – sem o mínimo esforço. O resto da história não surpreende ninguém. O sucesso de um é a desgraça do outro. Simples assim. A inveja (que é o não querer que o outro tenha alguma coisa) não deixa espaço para qualquer tipo de final feliz. Willy, que passa parte significativa do romance em lamúrias e auto−depreciação (a se imaginar como prejudicada), não conhece outra vida além do mundo do tênis. Sem o esporte será uma inútil.

Em momento raro, quase ao final da narrativa, Willy resume a sua história pessoal com uma frase cruel: "O tênis não é muito diferente do boxe... é a cabeça que leva as maiores surras." Pela primeira vez, como se estivesse vendo a bola passar ao seu lado, indefensável, compreende que a confusão mental é um dos sinônimos de tortura.


Lionel Shriver, pseudônimo de Margareth Ann Shriver, nasceu em 1957, em North Caroline, Estados Unidos, e mora em Londres, Inglaterra, onde é colunista do jornal "The Guardian". Seu romance mais famoso, "Precisamos falar sobre o Kevin", ganhou o Prêmio Orange de 2005, além de ter sido considerado o melhor dos livros contemplados com essa distinção. Também escreveu o romance "O mundo pós−aniversário".


Um comentário:

  1. Quando o tema é tortura mental, Precisamos falar sobre o Kevin é insuperável. O filme Beautiful Boy sequer arranha a questão.

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