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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

JEROME DAVID SALINGER

Todos nós, nos moldes daquela velha seção daquela velha revista, possuímos um tipo inesquecível. O meu era um escritor que não publicou uma única linha em muitos anos e que morava em Cornish, no interior de New Hampshire, no interior de Estados Unidos. Era. Porque, de acordo com o anúncio de seus filhos, ele faleceu no dia 28 de janeiro de 2010, aos 91 anos.

Jerome David Salinger ou J. D. Salinger, como era conhecido, publicou quatro volumes e ameaçou uma edição capa dura de Hapworth 16, 1924. Em gesto caritativo com a humanidade (que ele detestava amorosamente), resolveu permitir a edição de conto antigo, originalmente publicado na revista The New Yorker, em 1965. Escolheu uma editora pequena, quase de fundo de quintal, a Orchise Press, localizada em Alexandria, Virginia. Depois, por um desses tumultos que afligem os corações ofegantes, retirou a permissão.

O grande problema de Sonny (como era conhecido na juventude) era simples: ele odiava publicidade. Recluso, defendendo o direito de ser esquecido, ficava furioso quando via o seu nome emparedado nas páginas das revistas e dos jornais – outdoors da notoriedade de que sempre procurou fugir, barulho a constranger o silêncio que ele construiu nos últimos 55 anos de sua vida. Uma síntese para isso tudo poderia ser uma das frases pronunciada por Teddy (no conto homônino): Depois que eu sair por essa porta talvez eu só exista na mente das pessoas que me conhecem. Ou, em outra versão, digo, aversão a jornalistas, escritores, ensaístas, biógrafos e outros abelhudos, Salinger talvez ambicionasse uma vida similar a de Seymour Glass (See more glass?, pergunta a menininha em O dia ideal para os peixes−bananas), um cara complicado que, desprezando o suicídio lento que é o corpo se arrastando pela vida, gotas e mais gotas de sangue perfurando a pele a cada instante, prefere o encontro imediato com a morte.

Comprovando que a vida é diferente da ficção, o escritor viveu até os 91 anos e, nesse tempo, precisou esperar pelo fim de algumas batalhas. Ex−combatente da guerra de 1939−1945, Salinger sabia o valor dessas histórias narradas nas matinês das tardes de domingo, os carroções da caravana em chamas, cercados pelos índios, na hora H ouve−se o clarim proclamar a boa nova, na frente da cavalaria surge o herói, carne e osso, coração e mente, contradição e coerência, uma versão mitológicas do semi-deus, Holden Caulfield, um guri furioso com as injustiças do mundo e metido a filósofo nas horas vagas (ou seja, todas), e que é o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio (aquele livro de triste memória, que um sujeito muito confuso, Mark Chapman, carregava em uma das mãos, numa dessas manhãs muito malucas de Nova Iorque, quando pediu autógrafo ao John Lennon e, depois, meio assim de bobeira, como para não perder a viagem, em lugar de cantar alguma canção − I shot the Sheriff, de Bob Marley, por exemplo – resolveu, lentamente, mover um dedo e acionar o gatilho do revólver e ouvir e ver (ever, forever) o disparo, o sangue escorrendo pelo corpo do ídolo, a vida perdendo o jogo. Nada demais, só mais uma dessas histórias horríveis que decoram os programas de televisão, e que a gente torce para ser ficção e, claro, nunca são).

No meio dessas neuroses que constituem a tessitura do existir estava J. D. Salinger, tentando fugir de todas essas pequenas tragédias burguesas que atingem as pessoas através das horas e dos sonhos.

Apesar do barulho ao redor, ele sempre tentou permanecer em silêncio. Razões ele teve, basta lembrar dois episódios horríveis. Joyce Maynard, uma ex−namorada, publicou livro contando a história amorosa que eles viveram. A moça não escreveu elogios. Em outro livro, Margaret, uma de suas filhas, não poupou ressentimento em um desses desabafos cruéis contra o pai ausente, pouco amoroso.

Além disso, há o episódio do incêndio. Em 1993, parte de sua casa foi destruída. Enquanto ele acompanhava o trabalho dos bombeiros, talvez chorando pelos inúmeros manuscritos que talvez foram devorados pelas chamas, dezenas de jornalistas lhe faziam perguntas estúpidas sobre isso e aquilo. Ele se controlou para não ver a cor do sangue daqueles idiotas movidos a hambúrguer e coca−cola. Será que não conseguiam ver a dor que estava estraçalhando a alma do velho escritor?

Adianta alguma coisa ter sentimentos? Sei lá! O fato é que nada incomoda mais o mundo que um homem que prefere ouvir, sozinho, o barulho de apenas uma mão aplaudindo, o eterno "koan" ecoando na mente daqueles que nunca souberam entender o que ele estava pensando e por isso mesmo fizeram acampamento em frente de seus livros, de sua casa, de sua família. Urubus sentindo a carniça, acenderam fogueiras em homenagem aos deuses de barro da literatura. Esforço em vão. Invejosos do seu talento e não podendo escrever tão bem, tão limpidamente quanto ele, o perturbaram e inventaram coisas que ele não fez e que, verdadeiramente, nem importantes eram. Por essas e outras, de vez em quando aparece um (ou mil, é a mesma coisa) desses universitários chatos que − na falta do que fazer − relacionaram Salinger com ícones da mídia, Elvis Presley, Marlon Brando, Thomas Pynchon. Houve comparações com Don DeLillo, embora esse seja de outra estirpe, e também um tímido, e parece até sacanagem, um dos romances de DeLillo, Mao II, é baseado em Salinger – o suficiente para mostrar que o mundo é cruel e quer devorar tudo aquilo que não consegue entender ou corromper.

Nenhuma novidade. A vida adora pregar peças em seus filhos, algumas sem a menor graça. A questão é que – diante dessas histórias – algumas pessoas passam a acreditar na própria genialidade e começaram a criar fantasias e tolices e nem sequer perceberam que o ponto fulcral é outro.

Outro? Sim, outro. Qual? Difícil dizer. Talvez nem Salinger soubesse. De qualquer forma, em determinado momento, ele deu um basta nesse conto de fadas que é ficar distribuindo sorrisos protocolares ou freqüentar a mediocridade dos saraus literários, explicitando a hipocrisia social e essas coisas medonhas do elogio mútuo, "Você é ótimo", "Você também", a farsa do talento escondida no reino da mentira.

Solitário em seu descompasso, Salinger preferiu se recolher (encolher), fornecer alguma tranqüilidade para os dias que lhe restavam sobre a Terra, essas sutilezas de quem já viu tudo e não gostou das imagens. Claro que, nesses tempos de fúria narcisista, fica difícil entender aquele que decide esconder o rosto e que, a sua maneira, tem procurado ser contra toda essa lengalenga tipo David Copperfield − embora seja necessário lembrar que foi uma escolha, a sua escolha.

Por outro lado, a publicação (perdão, a não publicação) de Hapworth 16, 1924 está longe dessas histórias (feitas exclusivamente para vender jornais e revistas) de que Salinger cansou do ostracismo e resolveu dar um alô cheio de saudades para os bobos que adoram a sua literatura. Não há motivos para perguntar por que ele resolveu sair da toca depois de 34 anos sem publicar. Em 1974, ele declarou ao New York Times: Há uma paz maravilhosa em não publicar. É pacífico. Publicar significa uma horrível invasão de minha privacidade. Gosto de escrever. Adoro escrever. Mas escrevo apenas para mim e para meu próprio prazer. Enfim, um escritor vive de escrever ou daquilo que escreveu. E publica quando quer, porque quer. Um livro é um livro é um livro, letras e mais letras descrevendo os sonhos que foram pendurados na página, emoção em forma de poesia, e mesmo quando alguém diz que é prosa, prosa não há, o que há é erro de interpretação, tudo é verso, um único verso, universo, enorme poema, declaração de amor, ilusões que vão sendo reunidas – seja para o escritor, seja para o leitor – para, quem sabe, formar uma biblioteca muito especial, aquela que nos retrata fielmente, mesmo que seja apenas em ficção. Ou, como escreveu Virgílio, em outro contexto, mas que tem a ver, tem um haver, com este: Navegar é preciso. Necessário e exato, ler Salinger é uma viagem, "a" viagem.


(Versões pré−históricas deste texto foram publicadas em vários jornais, em diferentes circunstâncias. Conservei a essência, mas mudei a forma. Espero não ter cometido estragos irrecuperáveis.)

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