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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

MILTON HATOUM


A primeira vez que vi Milton Hatoum foi em 2002, na UFSC, em Florianópolis. Em um desses momentos que raramente se repetem, o escritor aceitou visitar o centro intelectual da província. Bagatela. Apenas um olá para a turma que precisava obter um certificado qualquer para dizer que cumpriu qualquer bobagem acadêmica. Não era o meu caso. Queria ver e ouvir o cara. Morando a quase 400 km de distância, só me restou arrumar a mala e partir. Quase cinco horas de viagem. O preço por não ter carro (e detestar dirigir) é o desconforto do expresso Reunidas.

A grande novidade? O evento atrasou. Mais de hora. Houve problemas. Nunca soube se foi com o avião ou com o aeroporto. Sei lá. Coisa pouca. Pouca coisa. E que o mundo se foda, o preço do ingresso não vai baixar só porque houve um incidente qualquer. Ou vai? Vai não. Diante dessas circunstâncias, a meia dúzia de gatos pingados que faria parte da claque, aproveitou a chance e sumiu por um daqueles corredores escuros e escusos, na direção ao só Deus sabe aonde. Como ninguém conseguia informar o que deveria ser informado, continuei a ler o que estava a ler – a minha maneira particular de tentar controlar a ansiedade.

Depois de séculos de espera, apareceu a margarida, digo, o convidado. Chegou cansado e sem paciência. Enquanto a organização do evento tentava arregimentar um arremedo de platéia, aproveitei a oportunidade para interromper a conversa entre o grande astro e um desses professores afetados – um desses que procuram esconder a óbvia ignorância com hermetismo e pose. Pedi autógrafos ao Milton. Nos exemplares de Dois Irmãos e Relato de um Certo Oriente. O que ele escreveu com aquela letra miúda, quase um carreiro de formiga, ainda hoje tenho dificuldades para decifrar. Não têm importância − foram palavras distantes, como as de qualquer autógrafo.

Agradeci. E me afastei. Havia planejado lhe dizer que parte da minha tese de doutorado era sobre um dos livros que ele escreveu. Desisti. Não consegui superar as barreiras. Foi melhor assim.

Ao lado de Susana Scramin (bonita, muito bonita), Hatoum falou menos de uma hora. Leu um desses textos prontos, prontamente sacado de algum bolso do casaco. Tão logo terminou a leitura, agradeceu o público (menos de quinze pessoas) e se preparou pra ir embora. Foi impedido. Alguém fez uma pergunta. Lá no fundo, outra pergunta. Levantei a mão e, quando me foi concedida a palavra, tentei iniciar uma provocação. Fiz alusão às inevitáveis comparações entre Dois Irmãos, Esaú e Jacó (do Machado de Assis) e Pedro e Paula (do Helder Macedo). Sem muita paciência, ele rebateu o questionamento e teceu considerações óbvias sobre o livro de Machado. Com visível enfado, renegou Pedro e Paula, dizendo que só o conheceu muito depois de ter escrito Dois Irmãos. Não me convenceu. Mas, fazer o quê? Antes mesmo que me fosse possível reagir a tamanho descaso, ele já estava respondendo outra pergunta, abordando outro assunto e de forma igualmente sucinta.

De volta à rodoviária, fiquei a rever os principais acontecimentos daquela noite, enquanto tinha os exemplares autografados nas mãos. Várias horas na estrada eram castigo menor para a aventura.

Somente o encontrei – ao vivo e em cores − dois anos depois, em Porto Alegre, no IX Congresso da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada). Ao saber que, na companhia de Tabajara Ruas e Luiza Valenzuela, ele leria um texto (Manaus, Bombaim, Palo Alto: Viagens do Imaginário), nada mais me restou senão ir até o auditório e aplaudir feito fã (na companhia de umas oitocentas pessoas). Guardei aquela imagem para sempre. Afinal, só aos grandes é que devemos oferecer ouro, incenso e mirra. Obviamente, retirei parte dessa devoção quando li trechos do texto de Porto Alegre publicados em A Cidade Ilhada, livro em que a energia e o talento parecem ter sido esquartejados por um equívoco literário. Tudo bem, os nossos ídolos também tropeçam.

Nunca mais o vi. Exceto em entrevistas de televisão ou em textos de jornais. Comprei e li tudo o que ele publicou. Raramente sinto aquele prazer que me devorou nos dois primeiros livros. Faz parte do pacote. Assim como Omar, na última cena de Dois Irmãos, em determinado momento é necessário virar as costas e ir embora – enfrentar a solidão proposta por outros livros e autores, sem as amarras do coração.


Um comentário:

  1. É uma maldição, talvez. O escritor começa bem, ou não, mas vai crescendo. O excesso de celebridade, a pressa em frequentar eventos literários, escrever artigos e cumprir contratos o exaure. O resultado é um livro fraco - falo de "A cidade ilhada", que também li e não gostei. "Dois irmãos" e "Relato de um certo Oriente" são obras primas. Penso muito na necessidade do ócio para a criação legítima.

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