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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

ONDE VOCÊ ESTAVA NO DIA DA MORTE DE JOHN LENNON?


Foi no dia seguinte, no lobby do hotel em que estava hospedado (que provavelmente seria classificado pela Embratur como trinta e dois avos de estrela. Ou menos), que soube do assassinato de John Lennon. Estava passando uma pequena temporada de dez dias em Campos Novos, cidade no interior do interior de Santa Catarina. Uma foto enorme do músico na primeira pagina do extinto Jornal de Santa Catarina anunciava a tragédia.

Nos dias seguintes, na medida do possível, procurei acompanhar os detalhes da historia. Aos 21 anos, não era exatamente um fã de Lennon. Ou dos Beatles. Na verdade, não estava muito interessado na carreira do enfant terrible inglês. Tinha outros interesses. Em nossa casa (que era dividida com um dos meus irmãos e a nossa mãe), quem fazia sucesso musical estava em outro patamar: Scarlatti, Vivaldi, Bach, Mahler. Nas horas vagas, a salada musical encontrava na dupla Charlie Parker e Billie Holiday o par romântico perfeito. A mãe e a empregada se refugiavam na cozinha, horrorizadas com aquela música que não servia para dançar.

A tranqüilidade era interrompida com a chegada dos bárbaros. Meu irmão e seus amigos quase decretavam estado de emergência municipal ouvindo rock em alto volume. Vizinhos perdiam a paciência e telefonavam nervosos, pedindo sossego. Raramente eram atendidos. A resposta mais comum para quem reclamava do barulho era colocar para rodar outro vinil, outra banda marginal, uns gritos que se perdiam no meio de acordes típicos de quem ainda não aprendeu a tocar guitarra ou baixo. Estranhamente, ninguém chamava a polícia.

The Beatles não faziam parte de nossas vidas. Algum tempo antes, um amigo (daqueles que cultivavam um estilo de vida alternativa, ou seja, maconheiro) tinha visto o desenho "Yellow submarine" e recomendado. Fui ver, não lembro se no cinema ou na televisão, gostei – mas não muito. Parecia naïf – que é uma palavra artisticamente educada para omitir adjetivos depreciativos. Igualmente ingênuas também pareciam as letras daqueles roquinhos insípidos que arremessaram os Beatles para o topo da Parada de Sucessos.

Quando os garotos de Liverpool se separaram, John assumiu o controle dos holofotes. As constantes fotos nos jornais, o relacionamento com Yoko Ono, a opção pacifista − itens de uma campanha de marketing bem estruturada e que lhe garantiu os 15 minutos de fama vaticinados por Andy Warhol.

Em frente ao edifício Dakota, Mark Chapman apertou o gatilho, confirmando a tragédia anunciada, o velho mito de que os heróis morrem jovens, a perda da vida garante a imortalidade, todas essas bobagens que costumam justificar o injustificado.

Na outra mão do assassino, um exemplar de O apanhador no campo de centeio (J. D. Salinger).

Lá em Campos Novos, ao ler a notícia (ainda me lembro disso), senti uma tristeza desproposital. O velho vício humanista apostando fortuna em jogo de cartas marcadas. Sim, a vida continua, mas... Nada justifica a morte gratuita, disse para mim mesmo, como se isso pudesse servir de anestésico para as dores do mundo.

Somente na maturidade (muitos anos depois) é que consegui ouvir John Lennon com outros olhos, ouvidos e sensibilidade. Não sei se perdi alguma coisa pelo caminho. Provavelmente, sim. Faz parte.


Mark Chapman e John Lennon: uma história desencontrada, a morte como recompensa para a fama, o horror sem desculpa ou sentido.

3 comentários:

  1. John sobreviveu e reencontra-se no espírito dos que imaginam um mundo maior.
    Bravo pelo post!
    Me emocionou!
    :)

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  2. Eu era uma bebezinha. Provavelmente mamãe estava trocando a minha fralda, que na época era de pano. E nem por isso deixei de ter John Lennin e Beatles no meu dna. Adoro!

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