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terça-feira, 22 de novembro de 2011

O CORAÇÃO DE LAGES PULSA DENTRO DO NOSSO PEITO

Para se perder em Lages é necessário instruções. Ao contrário dos geógrafos, que esquartejam o mundo para poder brincar com os pedaços, só é possível se perder em uma cidade quando a conhecemos completamente: mapas, livros, fotografias, relatos, lembranças e vozes – que nos alcançam em cada esquina, lembrando que ruas são rios escorrendo pelo corpo da cidade.

Para poder se perder nos labirintos que formam o Continente das Lajens é necessário mais do que uma vida, essa incerteza menor. No distante ano da graça de hum mil setecentos e sessenta e seis, Antônio Corrêa Pinto de Macedo (um homem de mau gênio, como dizem serem todos os lageanos), nas veredas que entrelaçam os rios Carahá e das Caveiras, no alto da serra dos Certões de Curitiba (a denominação da época), fundou a póvoa de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens. Era um lugar habitado por animais selvagens e aborígenes (que se não são a mesma coisa, causaram igual temor), e, no interesse da colonização da terra e da salvação das almas, resultou aos ilustres bandeirantes aniquilá-los – tarefa que foi cumprida com denodo e lhaneza. Ultrapassados esses tristes percalços, coube aos escravos, sob supervisão dos colonizadores, edificar as primeiras benfeitorias. E assim foi feito.

Para se perder nos prazeres dessa cidade espalhada pelo centro de Santa Catarina é necessário querer ouvir os tropeiros conduzindo as manadas de muares, os carros-de-bois carregados de charque, a vida transportada de lá para cá, o entreposto que sempre ficava para trás. Para se encontrar com Lages urge caminhar pelas avenidas, morar em suas casas (antigas, novas, imaginárias), desviar o olhar quando alguma ex-namorada passar no outro lado da rua, sorrir para o gato que dorme na janela, conviver com a chuva entranhada na alma e o olhar bocejante do mendigo – cabides onde penduramos nossas emoções e perdas.

Lages mudou muito nesses 247 anos de existência – menos a cor. A cidade é, e sempre foi, plúmbea. Contra o verde dos vastos pastos que a circundam, há o cinza. O céu, os paralelepípedos, o rosto desconfiado das pessoas: tudo parece fadado a ter essa cor melancólica, mistura de saudade com invenção, descompasso de quem ainda vai descobrir a utilidade dos mistérios.

Para se perder em Lages é fundamental ter calor no inverno e paciência durante o outono, é preciso saber que o verão dura uma fração (talvez umas duas horas, lá pela metade de janeiro) e que a primavera é tão linda quanto uma daquelas histórias contadas diante do fogão de lenha, relembrando os tempos de antigamente.

Sabores e aromas estão presentes em cada canto da cidade. Maçã, ameixa, pêra, pêssego, goiaba, gila, pero-figo, um mundo colorido e gostoso. E as “frutas de passarinho”? Figo, amora, uva, pitanga, butiá, são joão, araçá, guabiroba, uvaia. Houve um tempo em que o café-com-mistura era servido às quatro horas da tarde: pão feito em casa, bolos, cucas, rosquinhas de coalhada, sequilhos, broas de fubá, queijos, mel, nata, requeijão, “schimias” variadas, leite gordo, a xícara de café bem forte (torrado no pilão, no fundo de casa). Se tudo isso não bastasse, havia pinhão assado na chapa.

Para se perder em uma cidade é sempre bom ter o que lembrar (a melhor forma de manter aquecidos os afetos): sanduíches e crush (ou capilé) nos piqueniques no Guará, no Salto, na gruta de São Bom Jesus, passeios no Tanque, colheitas de macela no Morro Grande, as ruas sempre iguais no caminho diário até a escola. Um dia, sentado na soleira da casa grande, lá em Morrinhos, no interior da Coxilha Rica, um menino tentou entender a amplidão do horizonte, enquanto tomava “camargo” e comia um pedaço de pão – ao fundo, o capataz gritava com o gado. Depois, em outras circunstâncias, o menino cresceu, mudou e envolveu-se com os contrastes do mundo: a cidade como parte de seu existir. Para que isso acontecesse fez-se necessário encontrar a si mesmo nos confins do Santa Helena, na Brusque, no Coral, na Ferrovia, no Morro do Posto, no Batalhão, no Aeroporto Velho.

Para poder se perder em Lages é condição mínima ter saudades dos domingos de fartura: matinê no Tamoio ou no Marajoara (só tinha graça se fosse “farveste”!), Diamante Negro, Mentex, pirulitos Zorro, balas azedinha. Depois da sessão, comprar gibis.

Em outro capítulo dessa busca: a pedagogia do desaprender o que parece ser invisível aos olhos e ao paladar. Intermináveis oceanos de cerveja: Marrocos (I e II), Casa da Sopa, PX (o famoso “Bar do Alencar”), Pharaphernalia, Lennon’s (I e II), Maria Maria, Gato de Botas, 900 (I e II), Bolicho, Cisne Branco. Quem conseguirá apagar da memória a mesa n° 4 do Marrocos II, o Marroquinhos, onde a alegria era uma constante e as garrafas navegavam pelas mãos de Heitor (o célebre herói troiano que acumulava as funções de dono de bar, garçom e amigo)?

Para se perder em Lages: apreender as sutilezas que amarram o mundo rural e a ilusão urbana. A Rua Hercílio Luz é uma imensa planície que esconde a alma dos lageanos. Rua-síntese, quase tudo está lá, uma brincadeira a unir o sagrado com o profano, um tapete de variedades. Entre a igreja do Conventinho e o rio Carahá: hospital, mercado público, auto-escola, museu, farmácia, ótica, prédios, garagens, bares, banca de jogo do bicho, revendedores de automóveis, salão de beleza, prostíbulo. E as lojas? Roupas, calçados, produtos umbandistas,... têm de tudo!

Para se perder em Lages: em que gavetas da memória estão o Bazar Danúbio, as Lojas Hoepcke, o banco Inco, o Kanto Jovem das Lojas A Barateira, o Five O’Clock, o Café Ouro, A Sua Livraria e mil outros lugares, versos de um poema incrustado na pele?

Para se perder alguma coisa, necessário é tê-la possuído um dia. Então cabe mergulhar nos momentos de glórias e decadência de uma cidade que foi corroída por seus personagens flamejantes, por suas idiossincrasias muitas vezes incompreensíveis, pelas fortunas que se perderam entre pinheirais, carreiradas e mulheres bonitas. As profecias de são João Maria, as lendas da serpente do Tanque e do tesouro enterrado no morro do Juca Prudente encontram complemento nas histórias dos “irmãos” Canozzi, da menina Aline, do General Leandrinho e da “tia Consu”. Como ninguém é lageano impunemente, é necessário conhecer Nereu Goss, Rogério Castro, Licurgo Costa, Cesar Sartori, Nereu Ramos, Malinverni Filho, Tiuzico, Clênio Souza, Morô, Al Netto, Estevam Borges.

Para se perder em Lages é preciso ouvir o silêncio, se embriagar com a água e o vento. E sentir o coração da cidade pulsando dentro do nosso peito.

6 comentários:

  1. Bravo, Raul! Excelente panegírico.Um lageano de nascimento e costumes se pronuncia nesses termos, e com essa forma. Parabéns a REPÚBLICA POPULAR DE LAGES.

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  2. Excelente descrição, esse é o coração do povo lageano pulsando forte e aguardando o próximo inverno.

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  3. Muito bom, Raul.
    O Márcio Camargo Costa e o Júlio Corsetti Malinverni "também tão bem" falaram de Lages.
    Se ainda não conhece os textos, pode conferir aqui:
    http://lagescritores.blogspot.com/2011/11/lages-dos-misterios-e-das-sete-colinas.html
    e aqui:
    http://lagescritores.blogspot.com/2011/10/repassando-o-passado.html

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