Páginas

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM PEDAÇO DA VIDA INGLESA, SEGUNDO JONATHAN COE

A classe trabalhadora jamais alcançará o paraíso – essa é uma das maldições que habitam o corpo social da modernidade. No entanto, aqui e ali, não é raro, escapa alguém, algum indivíduo inescrupuloso eternamente disposto a sacrificar valores e amigos para "chegar lá". O poder corrompe, afirmam os teóricos políticos. Ser corrompido faz parte da natureza humana.

Um fragmento dessa história de falsificação do mito faustiano está presente nos dois volumes de um dos mais interessantes painéis ficcionais da história social inglesa, os romances Bem−vindo ao Clube e Círculo Fechado, escritos por Jonathan Coe.

Entre as décadas de 70 e 90 do século passado, a Inglaterra foi palco de grandes transformações sociais e econômicas. Greves em diversos setores de produção industrial e ataques terroristas patrocinados pelo IRA (Irish Republican Army) tornaram possível um caldeirão cultural e econômico muito específico, cujo resultado catastrófico foi, entre tantas barbáries, a ascensão ao poder do Partido Conservador.

Em 2003, quando os adolescentes Sophia e Patrick se encontram em Berlim, cada um deles conhece parte da história de seus pais – mas não o todo. Por uma dessas coincidências que não são coincidências, Philip (o pai de Patrick) e Lois (a mãe de Sophia) foram amigos e algo mais em um passado muito distante. Distante para os adolescentes, próximos para o leitor – porque uma das qualidades da construção narrativa é a de produzir o efeito mimético de aproximar o que aparentemente está distante. O casal troca informações. Ao mesmo tempo, assumem o papel de narradores oniscientes (mas não muito) dos romances.

Bem−vindo ao Clube, quase todo narrado por Sophia, regride à cidade industrial de Birmingham, no ano de 1973. Quatro amigos (Benjamin Trotter, Douglas Anderton, Philip Chase e Sean Harding), alunos no King William’s Scholl, são espectadores do desmoronamento da vida política, social e cultural da Inglaterra. Paralelamente à guinada reacionária patrocinada por Margareth Thatcher e seus fascistas, os rapazes vão aprendendo que amadurecer (afetiva e politicamente) implica em sofrimento e decepção. Principalmente Benjamin e Doug. Enquanto o primeiro é um romântico incurável, mortalmente apaixonado por Cicely Boyd, o segundo é ambicioso e desapegado a certos valores e tradições. Com propósitos diferentes, observando (e se espantando com) o mundo de forma diferente, os dois rapazes se encontram e se desencontram de diversas formas, como constata Benjamin: (...) estou começando a achar que é o destino de Doug sempre estar no meio das coisas, exatamente como é meu destino estar sempre nos bastidores quando a ação principal acontece.

Utilizando−se de lembranças, artigos e cartas publicados no jornal da escola, trechos de diários e entrevistas, Sophia vai costurando os pontos desconexos da narrativa, sem se importar com as elipses, sem se abater pelos eclipses que soterram a continuidade de uma descrição escorada nessa matéria volátil que chamam de memória. De uma forma ou de outra, o relato consegue cumprir com o que se propõe.

O clímax é atingido durante aquele conjunto de ações e horrores que os jornais ingleses estavam chamando (...) de o inverno da insatisfação. No pub The Grapevine, Benjamim e Cicely encontram Sam Chase, pai de Philip. Aquele homem que durante séculos foi, para dizer o mínimo, um ignorante, agora, enquanto bebe cerveja, lê Ulisses, de James Joyce. Ao ver o jovem casal, fecha o livro e faz duas previsões: Margareth Thatcher jamais será primeira−ministra inglesa e Benjamin e Cicely viverão felizes para sempre. Erra feio. As duas.

O Circulo Fechado está estruturado em vários anos depois, oscilando entre 1999 e 2003. A ordem dos acontecimentos narrativos é determinada pela voz de Patrick (que, logo nas primeiras páginas, é substituído por um narrador de terceira pessoa, onisciente). O primeiro−ministro é Anthony (Tony) Blair. A direita reacionária, pregando conceitos difusos como Novo Trabalhismo e Terceira Via, tomou conta da Inglaterra. E Paul Trotter (o enfant terrible que havia infernizado a adolescência do irmão) é uma das estrelas ascendentes do Partido Conservador. Pronto para atingir o sucesso, independente de quantas vidas precise sacrificar, Paul encarna a síntese do sujeito ambicioso, sem caráter e emocionalmente insípido (nas palavras de Susan, sua esposa, Seu senso de humor foi cirurgicamente removido no nascimento). Também lhe falta coerência política. Entre o deus−dinheiro e a necessidade populista (e imediata) de atender os interesses de seu reduto eleitoral, falta−lhe sensibilidade para escolher um caminho.

O tempo se encarrega de afastar a imagem que os quatro amigos dos tempos de escola haviam projetado para si mesmos: dois são jornalistas (Doug é um especialista em política -temporariamente "promovido" a editor literário −, Philip é analista econômico), um está desaparecido (Sean Harding) e a grande promessa intelectual, o futuro grande escritor, Benjamin, ganha a vida como contador. Independente da imensa ironia que permeia todo esse desperdício de talento, o que se salva são os sentimentos que nunca diminuem de intensidade, não importando quantos anos tenham transcorrido. Em outras palavras, a vida dos quatro homens ainda está interligada, há um fio histórico atrelando−os a um passado difícil de ser superado.

O cenário narrativo do romance oscila entre Paul, Doug, Philip e Benjamin, entre Londres e Birmingham – e nesse percurso em que estão unidos à deterioração da vida industrial e ao cinismo político somente possível pela capital do Império Britânico, todo o sistema só funciona para acomodar uma pequena minoria da opinião política. A esquerda deslocou−se radicalmente para a direita; a direita deslocou−se um pouquinho para a esquerda, o círculo se fechou e todo mundo que se foda. O resultado imediato da dissolução ideológica aparece rapidamente: a ascensão dos movimentos de direita (travestidos de nacionalistas, querem expurgar tudo o que seja "diferente" ou que se oponha a essa faxina étnica).

Ao mesmo tempo em que o capitalismo predatório vai sufocando lentamente a classe trabalhadora e a terceirização sucateia a máquina estatal, Benjamin se transforma em um homem melancólico, quase auto−destrutivo. Não é uma visão agradável ver o espectro de um amor adolescente contaminando tudo e a todos, povoando com ruínas até mesmo as possibilidades mínimas de sanidade. Simultaneamente, o Zeitgeist, de uma maneira ou de outra, anuncia o esfacelamento das relações afetivas: sob o sino de uma nova era surge o reino do descartável.

Provavelmente a maior qualidade de Bem−vindo ao Clube e Círculo Fechado é a forma leve, repleta de humor, com que essa história trágica é contada. As cartas publicadas no jornalzinho do King William’s Scholl e assinadas por Arthur Pusey−Hamilton (pseudônimo de Sean Harding) são peças literárias demolidoras, dessas que desmascaram o cinismo e a hipocrisia que habita o interior de qualquer ser humano "civilizado" - o espírito de Jonathan Swift (principalmente aquele Swift de Uma modesta proposta) e George Bernard Shaw parecem estar presentes naqueles trechos.

Quando os últimos acontecimentos são esclarecidos, quando a narrativa chega ao fim − seja por ter cumprido o seu projeto, seja por esgotamento −, Patrick e Sophia cruzam o portão de Bradenburgo e acenam para o mundo que surgiu depois que alguns muros foram demolidos. Eles estão de mãos dadas, nada mais desejando da vida (...) além da chance de repetir os erros dos pais em um mundo que ainda tentava decidir se lhes permitia esse luxo.

Um comentário:

  1. Aceito sua modesta proposta. Vou canibalizar esses livros. Talvez assim eu descubra de que clube eu sou membro. Se é que eu aceito ser sócio de um que me aceite, como disse Marx e repetiu Raul.

    ResponderExcluir