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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXLIV)

 


Chove torrencialmente. A criança que fui imaginou que seria interessante ir para a rua e brincar com barquinhos de papel. Reprimi essa vontade. A possibilidade de ficar gripado pesou na decisão. O melhor a fazer, neste momento, é adiar. A aposentadoria está próxima e então, quando esse dia chegar (se chegar...) poderei fazer o que quiser – no máximo, dirão que estou senil.

Das dobraduras com papel, só sei fazer barquinhos. Minha psicanálise de boteco diz que essa vontade de partir jamais se concretizará. São muitas âncoras. E o oceano não tem fim. Escrever é uma forma de projetar os carimbos no passaporte.

Ah, tenho inveja de quem domina a arte do origami. Queria saber construir tsurus.

Depois que ultrapassei o abismo que existe entre os 18 e os 60 anos, a vida ficou mais confusa. Não estou dizendo/escrevendo que ficou pior. Nada disso. Mas, a verdade é que não fiquei mais sábio (sim, eu tinha essa ilusão), desisti de tentar controlar a ansiedade, a minha vida afetiva continua miserável e estou cada vez mais distante de conseguir ganhar algum dinheiro além daquele que garante a minha sobrevivência. Às vezes, tenho vestígios de alegria (uma expressão que tomei emprestado de uma personagem da Emily St. John Mandel).

Ao acordar, doem algumas partes do corpo. Fisgadas, câimbras. Nada insuportável. Ainda. Não dependo de 50 remédios diferentes. Ainda. O único que me acompanha é o Pepsamar, mas é raro o seu uso. Entre os médicos, só visito com alguma regularidade o oftalmologista. A miopia é o meu pior castigo.

Gosto de caminhar. Sempre que possível por ruas diferentes. A pandemia me fez diminuir essa rotina. Mas, munido das devidas precauções, vou ao supermercado, à padaria, ao banco. Não é o ideal, mas serve para desenferrujar os ossos, para desfazer essa impressão (cada vez mais angustiante) de que estou prisioneiro.

Toda vez que saia de casa, levava um livro na bolsa ou na mão. Sempre que possível (filas, repartição, logo depois do almoço) me distanciava do mundo objetivo e mergulhava na vida das criaturas de papel. Infelizmente, tive que abandonar esse costume. A possibilidade de ser contaminado pelo Covid-19 restringiu a geografia da leitura. Ler se tornou um hábito caseiro. 

Costumo esquecer o nome das pessoas, mas lembro de cenas de livros que li a mais de 40 anos e fico triste porque isso não tem a mínima importância. Não serve sequer para resolver problemas de palavras cruzadas.

Sou viciado em chocolate, Coca-Cola, tiramissu, gelatina e sorvete de pistache. Tomo chá diariamente e acredito que a vida seria melhor se as pessoas escutassem mais música e falassem menos. 

Sou um viajante. Em vários sentidos. Ao mesmo tempo, não sou uma pessoa fácil. Há um fosso com jacarés famintos ao meu redor. 


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