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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXXXIV)



Se alguém lhe disser que escrever é fácil, não tenha dúvida: trata-se de um mentiroso. Quando iniciei o projeto Diário da Quarentena não pensei direito no que significa escrever cerca de 500 palavras diariamente. Não estou arrependido. É o contrário. Mas, preciso admitir, piquenique não acontece todo dia. Muitas das 133 crônicas (até o momento) precisaram ser arrancadas (literalmente) a fórceps.

Depois de escolher o assunto, cabe a escritura. Raramente se consegue encontrar uma linha narrativa em que o texto se desenvolve no automático. Em muitos casos, o trabalho exige mais suor do que inspiração. Normalmente, o sujeito fica olhando durante meia hora para a tela do computador, antes de concluir que aquelas duas linhas que escreveu não vão levar a lugar nenhum. Dá vontade de arrancar os cabelos que não tenho mais.  

Em algumas situações, há a necessidade de usar algum truque narrativo: inverter a ordem dos fatos, controlar o fluxo de informações, descobrir algum elemento capaz de distrair a atenção do leitor, etc. Essas fórmulas precisam ser testadas, nem sempre funcionam.   

O meu método de trabalho envolve muita revisão. Detesto repetir palavra em parágrafo. Então, costumo ficar algum tempo garimpando duplicatas. Depois, passo o corretor ortográfico do World, que é – como dizer isso, sem ofender muito? – uma perda de tempo. O vocabulário mediano da máquina não encontra nem metade dos problemas – sem mencionar que marca em vermelho e verde palavras e frases que possuem gramática narrativa diferenciada.

Evidentemente, todo esse esforço nunca se mostra suficiente. Nunca será. Por quê? Porque as palavras adoram brincar de esconde-esconde com aquele que as fixou no papel (ou em qualquer outro suporte). Depois de algum tempo, o texto se torna opaco, perde a legibilidade, a revisão se torna inútil. Não é possível corrigir o erro mais banal – faltam ou sobram letras, palavras são escritas de maneira diferente do que recomenda a norma culta, trocadilhos involuntários aparecem, o inferno se instala.

A regra geral recomenda que qualquer revisão seja feita por outra pessoa. No momento, isso inviabiliza o processo. Então, vamos em frente. Abrir o blog e publicar é o passo seguinte. Pronto, está feito. Vamos começar outro texto?

Nananinanão. É melhor ler o que foi publicado. O erro grosseiro surge diante dos olhos e parece ter sido escrito com letras garrafais (fonte 36, no mínimo). A primeira coisa a fazer é pedir perdão pelos pecados. Depois, abrir o blog e corrigir. Mas, para não ficar macerando dúvidas, cabe mais uma revisada. Uma frase mal construída pede conserto. Depois, surge uma palavra incompleta e depois... Em algum momento, você diz para si mesmo: chega, abandono! E fecha o blog. Seja o que Buda quiser!

No dia seguinte, a surpresa: duas palavras iguais no ultimo parágrafo. Nova correção, dessa vez utilizando algum sinônimo ou fornecendo outra redação para o trecho. Podia ser pior, muito pior. A operação remendo (onde se tenta esconder as partes que foram substituídas por fita adesiva e barbante, como ensina a Margaret Atwood) só se realiza porque o computador existe. Antigamente, ninguém escapava da loucura se precisasse datilografar uma segunda ou terceira vez o texto corrigido. Tinha um líquido corretor, o branquinho, é verdade, mas eu o considerava como recurso estético horrível, a página ficava manchada e o ponto de correção chamava mais a atenção do que o texto.

Quando me perguntam quais são as habilidades necessárias para escrever com alguma competência, respondo – seriamente – que, depois de anos de leitura, um bom estoque de palavrões, de preferência os piores possíveis, pode ajudar. Na hora certa, o “nome feio” tem valor de oração.



Um comentário:

  1. Tenho lido muito o seu diário. Hoje fiquei especialmente grato pelo texto. Tua cara.

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