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sábado, 12 de março de 2011

ADILSON E O GOL



Adilson era fanático por futebol. A namorada, coitada, já havia perdido a conta das vezes em que fora trocada por “uma pelada”. Bastava os amigos acenarem com a possibilidade de uma partidinha que Adilson logo ia tirando a roupa, digo, vestia calção, meião, chuteira e a camiseta do Corinthians – uniformizado, se dirigia para o campinho, ali ao lado do bar e mercearia Gre-nal.

Para a maioria do pessoal, o futebol era mero pretexto para que, depois do bate-bola, sempre rolasse cervejada, tira-gosto e a velha e batida conversa sobre conquistas amorosas. Todos tinham histórias sobre aventuras e desvarios com a mulher mais gostosa do planeta, modelo pôster central da Playboy. Adilson, sempre discreto nessas horas, baixava a cabeça e entre um gole e outro de água mineral (sem gás!), esperava os ânimos serenarem. Só um assunto o interessava: futebol. Aliás, sabia tudo sobre o valoroso esporte bretão. Era conhecido como o rei das estatísticas (escalações, placares, incidentes,...). Uma enciclopédia, o rapaz!

Foi graças ao futebol que conheceu Maristela, a sua chefe de torcida. Durante intervalo de um dos jogos do campeonato amador, embora torcessem por times diferentes, perceberam que, talvez, fosse interessante trocar flâmulas. Dito e feito. Mas, como só o é possível na vida real ou em guerra de torcidas, não foram exatamente felizes para sempre. Adilson vivia nos estádios – ora assistindo aos embates esportivos, ora estufando as redes dos times adversários. Adilson era um homem-gol. Quer dizer... mais ou menos, porque Maristela cansou de chamar o namorado para realizar alguns amistosos. Nessas partidas o craque preferia o drible e não comparecia em campo!

O desespero da moça foi tão grande que, por sugestão de um pai-de-santo, sacrificou duas galinhas pretas em uma encruzilhada. Cartomante, simpatias de são João, amarrar santo Antônio de cabeça para baixo, acompanhar novena – tudo em vão! E o namorado, lá no bar, encostado no balcão, tomando água mineral (sem gás!), o “minguinho” esticado, conversando sobre futebol. “É um desperdício essa falta de treino”, reclamava. Em um momento de fúria, disse para si mesma: “Esse zero a zero não pode continuar”.

Maristela vestiu “aquela” minissaia de couro (segundo Adilson, “tão bonita como a camisa do curingão”) e, rebolando o suficiente para perturbar o equilíbrio do planeta, aceitou o convite de Adalberto, o “Betão da Penha”, para ir ao cinema, talvez um barzinho depois, a noite é uma criança, uma tabelinha daqui, um passe milimétrico dali e, quem sabe?, poderia até acontecer uma volta olímpica pelo estádio, a torcida delirante aplaudindo o artilheiro.

Antes do crime, Maristela mostrou que era adepta de formações agressivas: o seu time contava, no mínimo, com três atacantes e meio­de­campo ofensivo. Pediu para uma amiga que marcasse um gol contra: avisar Adilson que a namorada estava promovendo outro campeonato − e que, na qualidade de técnica, ela havia escalado um novo centroavante. No recado, ficou bem claro que se Adilson não melhorasse o condicionamento físico seria excluído do time. Nem no “banco” ficaria!

Apanhado no contrapé, o craque sentiu que o clima estava esquentando, aquela sensação horrível de levar o gol decisivo aos 48 minutos do segundo tempo. Precisava fazer alguma coisa. Quem sabe, reforçar a defesa?

Não, a tática deveria ser outra! Pelo menos foi esse o conselho que lhe deu “Jacaré”, o seu melhor amigo, logo depois que tomou conhecimento que Adilson estava na marca do pênalti. “Jacaré”, um ex-zagueiro do tipo “armário”, conhecido garanhão nas horas vagas, nem pensou duas vezes: mandou o perna-de-pau encostar na parada e dividir a bola; quer dizer, disputar o amor de Maristela. E, com a velha experiência dos cafajestes, recomendou um novo esquema de marcação: uma dúzia de rosas, caixa de bombons e um cartão apaixonado. “Essas frescuras custam um pouco caro, mas o placar final compensa o valor do ingresso”, arrematou diante do olhar do atleta, perplexo com tamanha sabedoria.

Infelizmente, a bola bateu na trave. A garota, cheia de mágoas, não quis conversa e mandou a encomenda de volta. E para completar a goleada, digo, a vingança, saiu, no final da tarde, de mãos dadas com o novo namorado. Na pracinha do bairro, mostrou para quem quisesse ver o coletivo o quanto era carinhosa. O treino esquentou de tal maneira que o Betão da Penha perdeu o fôlego com tamanho potencial de jogo. E olhe que era somente a fase preliminar!

Adilson assistiu o adversário carimbar as faixas roendo as unhas. Inveja, despeito, ódio – todos os sentimentos análogos a derrota passaram por sua mente. Pela primeira vez na vida pediu uma dose de cachaça, lá no boteco do Antenor. O líquido desceu queimando a garganta, um estrago sem fim. Depois de umas três doses, ficou bêbado. Mas, ao contrário do que acontece em filme americano, não conseguiu coragem para ir até lá fora e dar uns socos na cara do canalha que lhe havia roubado a bola, digo, a mulher de sua vida. Na maior cena, idêntico a torcida de time que está em último lugar na tabela da competição, não se preocupou em secar as lágrimas que afloravam pelo rosto – uma cachoeira sem fim.

Mostrando que tudo não havia passado da mais pura catimba, Maristela, ao saber do vexame, abandonou o outro e foi socorrer Adilson. Levou o paspalho para casa, providenciou banho frio, fez massagens, café forte e velou pelo seu sono. Um mês depois estavam vivendo juntos.

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Sei que esse final feliz e meloso é decepcionante, mas a vida está cheia de finais infelizes e esta é apenas uma história banal. 

2 comentários:

  1. Raul, lembro do Betão da Penha em dois ou três episódios no Momento, há muitos anos, em textos muito bem humorados. Bem que ele merecia ser publicado e se tornar mais conhecido dos seus leitores.

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  2. Parabéns!
    Você escreve muito bem!
    Sempre falo que temos em nosso País verdadeiros escritores anônimo.
    Sucesso...
    bjs Iva

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