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quarta-feira, 23 de março de 2011

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

Certa manhã, Rafael acordou com dor de cabeça, uma ressaca infinita. Sem paciência para fazer o café, vestiu a roupa e foi para o trabalho. No meio do caminho parou em uma lanchonete. Copo de leite e pastel. O leite estava frio e o pastel era puro vento.

Para não forçar a barra, antes de decidir se reclamava da qualidade dos serviços ou se ia embora, começou a contar até dez. Lá pela altura do seis, a porta se abriu e a mulher entrou. Sentada em uma das banquetas do balcão, quase ao seu lado, pediu café (com adoçante) e um sanduíche. A voz, quase um sussurro, era puro veludo.

Foi amor à primeira vista – ou será que Rafael ficou cego com a sua (dela) presença? De qualquer forma, a moça era um conjunto de emoções que deslizavam na direção da loucura. Cada centímetro cúbico daquele corpo equivalia a milhares de toneladas da mais instável nitroglicerina. Vestia uma “mini” minissaia. Quem é que conseguiria resistir àquele pedaço de mau caminho? Ou melhor, de ótimo, excelente, fantástico, perigoso caminho. Os olhos de Rafael brilharam.

Um brilho, digamos, libidinoso. Alguma coisa ancestral, uma loucura bárbara, a alquimia da insensatez irrompendo por todos os poros. Em seguida, teve o corpo sacudido por uma descarga elétrica em forma de desejo. Nesse instante, esqueceu das crueldades da vida e deixou os olhos passearem pela paisagem que exprimia a mais perfeita obra de arte que Deus colocou no mundo. Ciente de que as palavras são apenas uma forma desajeitada e primitiva de exprimir a emoção, sentiu−se como um burguês semi−letrado diante de um Van Gogh ou de um Renoir: adoração total.

O delírio só terminou no instante em que percebeu que ela estava diante do caixa, pagando a conta. Tentou alcançá-la e esbarrou em um gordo que vinha em sentido contrário. Quase brigou com o sujeito. Quando conseguiu chegar até a porta, ela estava entrando em um taxi – que foi embora em alta velocidade. Remoeu a imagem e o desencontro.

Armado da mais doce e infinita paciência zen, Rafael fez da vida uma busca incessante pela mulher desaparecida. Três anos e nada. Voltou dezenas de vezes até a lanchonete. Esteve em todos os lugares possíveis e imagináveis – bares, restaurantes, universidade, centros espíritas, circos, hipódromos, teatros alternativos, desfiles de moda: tudo inútil, sem sentido, sem a resposta que necessitava.

Um dia, caminhando por uma rua pouco movimentada, perto de um parque, percebeu uma mulher parada na esquina. Parecia ser aquela que estava destruindo o seu sossego: o mesmo corpo, as pernas esculturais, o olhar faiscante das princesas. Aproximou-se devagar.

Ficou observando-a, na expectativa que fosse outra. Ao mesmo tempo, as palavras secaram em sua garganta, o existir era um deserto – e o gosto de areia impediu que pronunciasse um único som.

Ela percebeu o interesse e perguntou:

– Vamos até o meu apartamento? Por cem reais nada poderá impedir a nossa felicidade. Vamos?

Surpreso, Rafael teve a nítida impressão de que o mundo estava desabando. Cheio de pudores, pensou em fugir o mais rápido possível. Antes, olhou mais uma vez para a garota: queria confirmar o que já era uma certeza. Depois, como uma criança desamparada, se deixou conduzir pela mão até um edifício no meio da quadra.           


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