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segunda-feira, 28 de março de 2011

MEU ENCONTRO COM O DALAI LAMA

Agora que se passaram alguns anos e todas aquelas pessoas que estavam conosco se transformaram em algo, talvez saudade, talvez névoa, percebo que te ver foi importante. Não. Tenho certeza que foi mais do que isso. Dizer que foi "importante" nada mais é que reduzir os acontecimentos ao nível das palavras e todos nós sabemos que as palavras nunca conseguem "dizer" muitas coisas além das convenções.
Estavas lá, com tuas vestes vermelha e laranja, falando em um inglês macarrônico. Estavas lá, com tua voz serena, porém ansiosa; forte, porém cautelosa; pausada, porém cheia de calor; pronta para falar de coisas que, bem o sabes, não estávamos prontos para ouvir. Estavas lá, com teu corpo aflito, bambu ao sabor do vento, movendo-se constantemente, metáfora viva da inquietação. Estavas lá, com teus óculos fundo-de-garrafa, e percorrias a sala com o olhar em uma velocidade que me deixava confuso. Estavas lá. E eu estava contigo, indeciso entre fazer anotações e procurar um lugar para sentar, precisando escolher um lugar no mundo, ­ e tu, sem vaidades, já havias escolhido estar conosco.
Em determinado momento, abandonei o mundo organizado, sentei no chão, a uns três metros da mesa onde, em pé, conversavas conosco, e, em posição de lótus, como um humilde discípulo, deixei que tua voz e tua imagem invadissem a minha vida.
O Salão Negro do Congresso Nacional, em Brasília, foi pequeno para tua presença. Os jornais dizem que éramos 800 pessoas. Perdoe-me, mas discordo. Talvez os meus olhos estivessem cheios de luz e multiplicassem os que lá estavam. Talvez. Mas éramos muito mais. Muito mais. E quando o som de nossas mãos, batendo umas contra as outras, quebrou os outros sons e o aplauso se fez alegria e tivemos a certeza que tu estavas entre nós e quando vi teu corpo pequeno descendo as escadas, cercado por inúmeros seguranças, fui tomado por um sentimento muito forte, desses em que chorar é exprimir contentamento. Alguma coisa transbordou. Na minha frente um rapaz levantou-se, parecia querer guardar-te só para ele: não como um souvenir de viagem, mas como uma dessas experiências cujo valor está no viver com intensidade e paixão. Outra pessoa, educadamente, pediu-lhe que sentasse. Houve um instante de perplexidade e surpresa. Depois, como em um desenho animado, os dois sorriram e, com resignação, voltaram para seus lugares. E, mais tarde, quando tu falavas, eles olharam um para o outro e compartilharam da graça de estarem juntos, contigo.
No momento em que alguns políticos estavam discursando, lamentei não ter trocado as lentes dos meus óculos, antes da viagem. Embora estivesses tão perto, parecias tão distante. Mas talvez o problema fosse comigo e, ingênuo, acreditei, naquele momento, que ter novas lentes poderia ser uma boa razão para me impedir de cometer alguns desatinos. Foi então que o deputado federal Fernando Gabeira, usando da palavra, protestou contra a situação do Kosovo, contra a limpeza étnica, contra os bombardeios da Otan. Como em um insight tardio, percebi que a minha cegueira não dependia dos óculos e que, mesmo entre as trevas políticas, existe saídas, ninguém está sozinho. Gabeira disse, com outras palavras, que há situações no mundo que valem uma luta, que viver é ter objetivos, que a dor de nossos irmãos também é a nossa dor, e que há uma série de pontos de contato entre o Tibete, Iugoslávia e Brasil. Abaixei o rosto, envergonhado.
Quando tuas palavras vibraram pelo espaço e o teu rosto aberto em sorrisos nos cumprimentou, o clima tenso dissipou-se. E aqueles que estavam contigo retribuíram tua saudação, palmas das mãos unidas diante do rosto, uma leve curvatura do corpo. Com a determinação que caracteriza os que acreditam que a melhor forma de ação humana é semear a paz, evocastes os valores espirituais, o conceito de felicidade e a resistência pacífica. Em tua fala, sereno e profundo como o oceano (Dalai, em mongol), iluminavas as nossas mentes, falando sobre pequenos gestos de amizade, sobre o cultivar do amor e da compaixão até que possamos atingir a verdadeira essência de todas as coisas. E dizias que isso não será possível enquanto houver desigualdades sociais, opressão e pessoas que se recusam a construir relacionamentos de solidariedade com aqueles que precisam de ajuda.
Enquanto tua voz esculpia sentimentos em nossos corações, tuas mãos descreviam inúmeros arabescos, como se estivesses criando um cenário estético para a fé. E, isso me parece cada vez mais importante, estratégia de aproximação entre a mensagem e o aprendizado, entre a esperança e a verdade, entre o inominável e o sagrado.
Tua conferência durou 40 minutos e, ao final, afirmastes que és apenas um monge preocupado em divulgar o budismo e a unidade entre todas as religiões. "Quero dizer-lhes que irei dedicar o resto de meus dias a servir a humanidade como puder". Apesar dessa declaração de humildade, era possível perceber que o exílio é algo que te preocupa. O Tibete, invadido pelo imperialismo chinês, está presente em cada um dos teus gestos. E, de certa forma, tua peregrinação pelo mundo é forma de protestar contra esse arbítrio.
E então fostes embora, leve como o vento, e tentei, sem sucesso, me aproximar de ti. Outras pessoas também queriam a mesma coisa. Então deixei a multidão e fui até uma das janelas. Com o olhar fixo na imensidão do cerrado, percebi que havia, em todos nós, aqueles que estiveram reunidos naquele salão, um contentamento diferente: foi a forma com que Buda escolheu para nos abençoar.

(ESSE TEXTO, COM PEQUENAS ALTERAÇÕES,  FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL “A NOTÍCIA”, de JOINVILLE, SC, em 25/04/1999)

2 comentários:

  1. Desculpe não ter o dom da palavra como você, mas quero deixar registrado o prazer que senti em curtir essa leitura, senti como se estivesse realmente de lá obrigada.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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