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quinta-feira, 3 de março de 2011

LUTA DE CLASSES


Futebol era o jogo, mas se alguém pensasse em guerra seria a mesma coisa.
De um lado, meninos de excelentes famílias, vestindo calções e camisetas de boa qualidade; do outro lado, um bando que parecia desconhecer água e sabão, além de estarem usando um uniforme que, francamente, já havia conhecido melhores dias. A idade média dos jogadores era de 11 anos e a partida estava valendo por uma rodada do campeonato infantil.
Nas arquibancadas, torcidas desorganizadas. No grupo que apoiava o time dos meninos bonitinhos, alguns pais roíam unhas, faziam gestos desesperados e, para não parecerem que estavam próximos da loucura, xingavam a mãe do juiz. Pela outra equipe, uns cinqüenta (ou mais) garotos – seria injusto deixar de registrar aqui que alguns pais dos meninos de uniforme bonito ficaram com medo dos “pivetes”; a gente nunca sabe o que essa piazada de bairro pode fazer, não é mesmo?
Dentro de quadra, empurrões e caneladas. Ao mesmo tempo, o placar mudava com uma velocidade irritante: um a zero, um a um, dois a um. E dá-lhe chutes a gol, erros de passe e meninos caídos em quadra. E, para completar a festa, gol: quatro a um, cinco a um. Fácil, fácil. Nove a um foi o placar final.
Eu estava sentado na arquibancada e me alegrei com cada um dos gols. “Bem feito! Quem mandou esses riquinhos se meterem a jogar conosco?”, falei para mim mesmo. Ao ver o jogo dos meninos, me senti transportado para o passado: naquele instante eu também tinha 11 anos e estava em quadra, jogando, fazendo gols. Fui estudante de escola pública: era através do esporte que superávamos as dificuldades. Vencer as equipes dos colégios particulares podia não resolver as nossas carências, mas era o incentivo necessário para continuar resistindo.
Eu estava sentado na arquibancada e torcendo para o lado errado! Só entendi que estava contradição total quando vi o meu filho quase sem fôlego, tomando dribles, se esforçado para que o vexame fosse menor: ele estava jogando no time que perdeu!
Depois do jogo, abraçado ao menino, pensei em lhe pedir desculpas por, de certa forma, tê-lo abandonado. Não consegui – “um anjo torto, desses que vivem na sombra” parecia me dizer que os gols do time adversário simbolizavam uma espécie canhestra de justiça social.

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