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quarta-feira, 2 de março de 2011

NOTAS ESPARSAS SOBRE A CHUVA

A infância está perdida. Os dias de chuva, também. Simultaneamente, as lembranças são uma constante. O ontem e o hoje se confundem em um redemoinho entre o que o que poderia ter sido — e foi! — e a paixão de quem um dia imaginou que isso nunca pudesse acabar.

Houve um tempo em que o  mundo infanto-juvenil de minhas ilusões se transformava. Paradoxalmente, o espaço físico da casa onde morávamos ficava maior.  Antes da chuva, só havia o quarto e a cozinha (não tínhamos televisão) — as outras dependências eram intocáveis! A sala, sempre preservada, mal começava a garoar,  era invadida por xerifes implacáveis e ladrões de trens em fuga. Às vezes, bandos de árabes taciturnos demarcavam terreno entre o sofá e a mesa de jantar. Isso para não mencionar os bandeirantes exterminadores de bugres que viviam ameaçando abrir todas as portas dos armários, na procura ensandecida por suas presas. Tiros de pistola e metralhadora se confundiam com o choro nervosa de minhas irmãs. A mãe sempre reclamava do tempo e dos filhos. Tome cuidado! Não bata na cristaleira! Meu Deus do céu, menino, esse vaso foi presente de tua avó! E, com as mãos na cabeça, atravessava o dilúvio doméstico e meteorológico, com um interminável rosário de lamentos.

Nunca consegui esquecer aqueles finais de tarde, na volta da escola, um chuvisco fino começando a fazer graça. “Chuva de molhar bobo”.  Depois, aumentava. A água escorrendo por entre os cabelos, molhando o rosto alegre, uma benção divina, os pés descalços, os sapatos na mão, a irresistível vontade de navegar pelo mundo a fora, dentro das poças d’água — os barquinhos de papel eram confeccionados com folhas de caderno. Depois, caminhar pela sarjeta, chutando a água, sentindo nos pés uma carícia gostosa — vez ou outra um caco de vidro fazia a festa. Estrago maior sempre era a reina da mãe, Você não tem jeito, menino!, o horrível chá de limão com mel, Toma, é bom prá gripe!, o banho quente e rápido, o olhar severo do pai — não sei porque mas faltava alguma cumplicidade entre nós.           

Frequentemente a chuva caia quando estávamos dentro de casa, protegidos. A solução era tentar colocar o mundo de ponta-cabeça — se a mãe não estivesse por perto. Nas horas de calmaria muitas partidas de banco imobiliário, mico preto, trilha, pega-varetas, dominó. Tudo sempre rápido, sem muita vontade. Comportado demais. Passar o tempo assim não tinha graça. Bom mesmo era brincar de farveste (sic), salvar as carroças que estavam sendo atacadas pelos índios, bang-bang, o duelo entre o bandido e o mocinho ao cair da tarde, como  naquele filme da matinê de domingo.

Depois, quando o cansaço tomava conta do corpo ou a bunda ficava vermelha —inevitável palmada forte de algum adulto sem paciência — irresistível era encostar o rosto na vidraça embaçada e ficar imaginando tristezas. A chuva se confundia com as lágrimas que brotavam na face. A mão abria espaço, desenhando sonhos no vidro. A rua, que antes nem era lembrada, encantava o olhar. Como era bonito ver os vizinhos pelas ruas sem calçamento, caminhando pelo barro, seguindo os seus desatinos. Guarda-chuvas e sombrinhas carnavalizando o sonhar.

Havia também os dias de felicidade, bilhete de loteria premiado. Por exemplo: no meio do maior temporal, talvez para tentar acalmar os filhos, minha mãe resolvia fazer bolinho frito (ah, os famosos bolinhos de chuva!) e constatava que não havia mais azeite em casa. Faceiro, candidatava-me para ir comprar, na mercearia da esquina. Conhecendo o filho que tinha, ela relutava em permitir a aventura. A pressão de meus irmãos e a fome decidiam o problema. Mal colocava os pés fora de casa, sentia  a água lamber o meu corpo. Seria um êxtase, se naquele tempo eu soubesse o que era isso. Mas, de qualquer forma, era bonito e necessário. Um ritual de passagem. Como não poderia deixar de ser, uma eternidade se consumia até a hora de voltar. Mil e uma brincadeiras, o existir banhado pela inocência. Ao chegar em casa, parecia um pinto molhado. Atravessava a cozinha, embrulhado em uma toalha felpuda e quente, puro carinho. Mas, o prazer tinha preço e como prêmio, além do resfriado, surra de cinta — Onde é que já se viu, menino? Por um acaso você se governa?

Depois, alguns anos depois, a vida cada vez mais difícil, a inevitável decadência burguesa, fomos morar em um bairro. Era em cima de um morro e o ônibus-circular não subia a ladeira em dias de chuva. Na manhã seguinte, o melhor remédio era uma boa caminhada até a civilização. Descalço. Em uma praça, que havia no meio do caminho, só nos restava lavar os pés, calçar o par de tênis e ir para a aula, com a altivez de um príncipe destronado.

O tempo passou, assim como muitas outras chuvas. Transformei-me em outro. Claro, sempre há o fascínio de caminhar pela chuva. Resisto. Alguma coisa me retém. Nem mesmo quando estou na praia, inevitáveis chuvas de verão, tem sido possível relaxar e aproveitar esse exercício de liberdade.

O mais difícil é esconder  que toda vez que chove sinto uma tristeza boba, dessas que, quando a gente menos espera, bate no nosso ombro lembrando o passado. Tento compreender que tudo tem fim, até mesmo a felicidade. E que a chuva sempre foi como uma dessas namoradas que entram e saem de nossas vidas sem pedir licença. 

11 comentários:

  1. Pelamadrugada,cara.... Que texto mais lindo!!!!!!!

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  2. RAUL ARRUDA FILHO FOI COM GRANDE PRAZER E UM NÓS CADA VEZ MAIS FORTE QUE TIVE O PRAZER DE LER ESTAS LINDAS E GOSTOSAS LEMBRANÇAS SUAS, REMETEU-ME AS MINHAS DURANTE SEU RELATO NUM TODO, E DIANTE DE TUDO QUE LI CHEGO A SEGUINTE CONCLUSÃO QUE TUDO VALEU A PENA E ESTAMOS AQUI COM NOSSAS NOSTALGIAS QUE DE UMA FORMA OU OUTRA FEZ-NO HOMENS DE VERDADE E HOJE PODEMOS LEMBRAR COM AMOR DE UM PASSADO QUE NÃO VOLTA MAIS, SÓ NOS RESTA TAMBÉM CANTARMOS NA PRÓXIMA CHUVA QUE CAIR RODOPIANDO DE POÇAS EM POÇA E SORRINDO DE TER CONSEGUIDO CHEGAR ATÉ AQUI... PARABÉNS E MUITOS APLAUSOS POR SE CONHECER... OBRIGADO MESMO...

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  3. tigre_952: Todos nós, de uma forma ou de outra, estamos - diariamente - "singing in the rain". Obrigado!

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  4. Magnifico texto Raul, a chuva, o cheiro a terra molhada sempre nos leva para além dos nossos pensamentos, e nos faz pairar, em silencio sobre o que é, foi e será a vida.

    um abraço
    oa.s

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  5. Que bela chuva de palavras e ideias.
    Grande abraço,
    Carlos Eduardo
    veredaspulsionais.blogspot.com

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  6. LINDO, LINDO...CHUVA E SAUDADE CAMINHAM JUNTAS...
    BEIJOS!
    GRATA PELO SAUDOSISMO...

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  7. Pois é Amigo Raul! O fato é que nossas vidas não têm mais rituais de passagem. A sociedade moderna e globalizada não permite. Prefiro pensar assim que aceitar que o que somos hoje, não passa também de um ritual de passagem!!!! Lindo texto!
    Abraços! Elaine.

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  8. Adorei ler! Impecável o texto, Raul! (Li e fiquei aqui divagando, falando com os meus botões, sorrindo... e emocionou, viu?!)
    Bjo.

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