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sábado, 26 de março de 2011

O GATO SUMIU!


O gato sumiu!, a empregada, ao telefone, anunciou a tragédia. E completou: O menino está lá embaixo, na garagem, procurando pelo animal!

Só faltava essa, disse para mim mesmo. Encerrei a conversa com uma promessa: Em quinze minutos estarei aí!

Era um desses dias comuns, plúmbeo, uma garoa fria encharcando a cidade. Na metade do caminho pensei que estava perdendo tempo, melhor era ir cuidar da vida, porque, francamente, não sabia em que poderia ajudar. Se o gato, gordo como sói acontecer com gatos castrados, escapou pela porta aberta e resolveu dar uma espiada no mundo, quem poderia fazê-lo desistir de tal aventura? Em todo caso, naquele momento de perda, movido pela solidariedade, lá fui.

Ao redor da mesa, após o almoço, todos tentavam evitar que as lágrimas escorressem pelo rosto. Havia uma tristeza genuína pelo desaparecimento de um dos “integrantes da família”. 

Na companhia do menino, fui procurar nas ruas próximas. Enquanto caminhávamos pela quadra, olhos atentos a qualquer movimento suspeito, conversamos sobre a possibilidade de algum morador do prédio, criança ou adulto, ter sequestrado o felino. Como sempre acontece nessas circunstâncias, não concluímos nada, inclusive porque pairava sobre nós outra possibilidade – tão terrível que em nenhum momento foi mencionada.

De volta ao apartamento, ficamos “esperando Godot” – ou algum milagre (que se não é a mesma coisa, é muito parecido). A mãe do menino, um pouco antes de sair para trabalhar, disse que iria confeccionar cartazes com fotos do bichano para distribuir na vizinhança.

Movidos pelo desespero, resolvemos revistar, outra vez, possíveis locais onde o gato poderia estar escondido: dentro dos armários da cozinha, nos guarda-roupas, nas áreas desabitadas do apartamento. Nos poços de ventilação e nas janelas imaginamos vôos e outras bobagens – e nem sombra do animal.

Em algum momento, a voz do menino interrompeu as buscas:

Você está ouvindo?

O que?, perguntei.

Um miado.

Cético, pedi que ele parasse de imaginar coisas e se concentrasse na procura.

Não estou sonhando, eu ouvi o gato, e me olhou, cheio de esperança. 

Onde?

Daquele lado.

Ficamos em silêncio, esperando que alguma coisa mágica acontecesse, um desses instantes típicos de cinema, a comprovação de que a vida, apesar de provas em contrário, é um encanto.

O som, fininho, abafado, foi invadindo o ambiente. De repente, tudo fez sentido. O menino se ajoelhou diante de uma das camas, ergueu a colcha e abriu a gaveta escondida ali embaixo. Ato contínuo, começou a gritar de alegria. Dormindo dentro da gaveta, o gato somente despertou quando ouviu que estavam chamando por ele. Aquele que até então estivera desaparecido, e que se chama Gato, espantado por tanto barulho, bocejou.

2 comentários:

  1. O Gato! A Aninha gosta muito dele, apesar do sentimento não ser recíproco...

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