Páginas

quinta-feira, 31 de março de 2011

ÓPERA



Nunca se diga que o amor é fácil, antes de vivê-lo como um vício.
(Antonio Maria)

           
Sentado à mesa, com uma garrafa de vinho pela metade e a ausência por inteiro, o desânimo estampado em seu rosto era apenas uma parcela do sofrimento.

Depois de uma briga tempestuosa, dessas que somente são possíveis entre pessoas que um dia dormiram juntas, ela arrumou as malas e foi embora. Antes, disse, ou melhor, gritou, em alto e bom tom, principalmente para os vizinhos escutarem, as razões do seu gesto.

Não foi fácil ouvir a lista de ressentimentos e mágoas. Estóico, ele não disse uma palavra, na vã esperança de que ela cansasse e percebesse o quanto a cena era ridícula e patética.

Essa tática não deu certo. Incentivada pelo silêncio, que considerou um descaso, a mulher inventariou todos os desacertos. E se é natural aos homens tentar esquecer as coisas ruins, as esposas jamais conseguem. Comprovando que a verdade é um hábito terrível, ela lembrou milhares de situações. Chegou até a recordar aquela vez que ele olhou para as pernas de uma vizinha. Cheia de rancor, repetiu o comentário maldoso que se seguiu ao olhar.

Não sobrou pedra sobre pedra. Ensandecida, ela fez questão de abrir feridas cicatrizadas – ou que ele imaginava estarem cicatrizadas! Enfim, colocou todas as cartas sobre a mesa e disse, raivosamente, uma serie de coisas que o surpreenderam. Falou que o amor não sobrevive a pequenas faltas. Que cada vez que erramos, a pessoa amada nos ama um pouco menos. Que as relações afetivas estão conectadas com uma espécie de livro de crédito e débito. E que os nossos defeitos e enganos – em oposição às nossas qualidades – vão sendo somados em uma das colunas. Assim, a cada deslize, vamos perdendo pontos. Um dia, nada mais nos resta. Zeramos a conta.

Por fim, entre lágrimas, declarou que ele era o único culpado pela situação que estavam vivendo.

Em seguida, reuniu algumas coisas e, sem sequer dizer adeus, foi embora, batendo a porta.

Alguns dias depois, uma amiga comum telefonou para combinar a partilha dos bens. Ele concordou com todas as exigências. Entregou, inclusive, o disco do Astor Piazzola de que tanto gostava. Não havia mais razões para viver cercado por objetos que só o fariam recordar a mulher que tantas vezes beijara com paixão e que agora o odiava com uma ferocidade inimaginável.

Depois de ter revivido mais uma vez todas as cenas da tragédia, ele levou o copo à boca e bebeu mais um gole de vinho – para acalmar a sede e o medo. Admitiu que alguma coisa estava quebrada dentro do peito. E chorou. Chorou como só podem chorar aqueles que não sabem pedir perdão.

quarta-feira, 30 de março de 2011

GELADEIRAS E PRECONCEITOS

O que distingue um homem de um rato? Muitas coisas, dirão os cartesianos. Sim, concordo. Mas, na essência, o que é que realmente faz toda a diferença? Caráter, arriscarão alguns. Inteligência, dirão outros. Nesse ritmo poder-se-ia enumerar 5.315 alternativas – todas, segundo minha concepção, erradas. Depois de exaustivos estudos, foi possível concluir que parte da transcendentalidade do mundo se esconde em uma geladeira. E, se o(a) ilustre leitor(a) me honrar com o prazer de sua companhia, tentarei desvendar essa intrigante e peripatética tese.

Antes, uma pequena digressão. A sociedade moderna discrimina tudo o que é diferente. Ou que não estiver na moda. Não adianta tentar manter idiossincrasias particulares – quando menos se espera aparece um chato e pisa no nosso castelo de areia; e pouco importa se passamos a tarde toda construindo aquela bobagem para tentar impressionar a namorada. Um exemplo clássico, eternamente presente em minha vida, está no tipo de marginalização que sofrem aqueles que ignoram a indústria automobilística. Muitos de meus amigos jamais me perdoaram por não possuir nem mesmo um fusquinha, por ter dificuldades em distinguir uma kombi de uma ferrari e por detestar dirigir (certa vez, evidenciando típica falta do que fazer, freqüentei uma auto-escola). Em outras palavras, essas insignificâncias conseguiram me transformar em um cidadão de segunda classe. Tudo bem, se a questão se resume em discriminar, lamento informar a quem interessar possa que estou em ótima companhia: índios, sem-terras, sem-tetos, não fumantes, negros e outras “minorias” menos cotadas.

Mas, e a geladeira? Onde é que o eletrodoméstico entra nesta história? Calma, já chego lá! A questão é que durante muito tempo não tive refrigerador em casa. Morando sozinho e sem muitas preocupações com as questões domésticas, considerei que era um item completamente dispensável na minha vida. Quando comecei a desorganizar o apartamento em que moro foi necessário decidir se comprava um DVD ou uma geladeira. Sem pensar duas vezes, investi na ampliação de minha cultura cinematográfica, através da tela pequena. Resultado: além de fazer a alegria dos proprietários das locadoras, fui isolado pelos amigos. Amarguei ouvir certas frases: “Como é que vou à tua casa, se nem um cerveja gelada você tem para servir?” E a palavra "gelada" vinha envolta no papel celofane do desprezo. Até o meu filho (na época, com quatro anos), perguntava: “E a geladeira, pai?” Pois é, e a geladeira?

Acontece que certo dia (provavelmente por algum descuido que nunca procurei desfazer) notei que havia uma pequena folga na conta bancária. Sem saber o que fazer com tamanha fortuna, decidi procurar pela famosa geladeira.

Armado de paciência – mas não muita – fui à luta. Primeiro, uma pesquisa de preços. Diferenças astronômicas entre uma loja e outra. O mesmo para as condições de pagamento. Paralelo a isso, aprendi uma lição: não basta ter o dinheiro para poder comprar. Algumas lojas (é possível entender isso?) não possuem estoques – é preciso esperar, no mínimo, uma semana pela entrega!

Ansioso por resolver a questão, optei por fazer negócio com um estabelecimento comercial em que a funcionária (muito ajeitadinha, diga-se de passagem) me prometeu posse imediata do objeto do desejo (neste caso, a geladeira, não a funcionária!). Ou seja, ao final daquela mesma tarde. Além disso, aceitaram parcelar a conta. Foi quase como acertar na loteria. Quase.

Como era meu dia de brincar de pai exemplar, fui buscar o filho no colégio, às cinco horas da tarde. Em seguida, lépidos e faceiros, fomos para casa aguardar a chegada da novidade. Que não chegou. Nem na manhã seguinte. Tampouco recebi algum telefonema explicando a situação.

Furioso, voltei até a loja. Com a cara-de-pau típica dos incompetentes o gerente me informou que haviam vendido duas vezes o mesmo produto! E o premiado, adivinhem quem foi?

Desfizemos o negócio imediatamente. De gorjeta, mandei todo mundo plantar batata no asfalto. Com enxada de borracha. Na verdade, os termos que utilizei foram outros e levemente mais ríspidos. Coisa pouca. Bobagens de quem estava com a cabeça quente.

Procurei outra loja. Dois dias depois. Ótima forma de pagamento, entrega em cinco dias, diferença de preço quase insignificante. Arrisquei.

No dia marcado, fiquei aguardando alguma tragédia. Que não veio. Aliás, nem notícias da geladeira. Será que havia sido enrolado, outra vez? Cheio de medo, fui trabalhar.

Na volta para casa, encontro uma vizinha que me diz que “ela” estava me esperando no corredor do prédio.

− O moço da entrega estava com pressa. Pediu para que eu a recebesse. Será que fiz mal?

Ignorei a pergunta e entrei no prédio. A “coisa” estava lá, agasalhada por uma caixa de papelão. Tive uma crise de paranóia: e se estiver estragada? Ou arranhada? Ou... sei eu lá!

Depois, com o carinho que se oferece a uma namorada, a fiz ultrapassar a porta do apartamento. Na manhã seguinte, já estava incorporada ao meu mundo domesticado. E, por algum estranho motivo que não quero entender, passamos a viver um clima de lua-de-mel. Inclusive porque agora o queijo está mais bem protegido.

terça-feira, 29 de março de 2011

O DIA EM QUE ESTIVE PRÓXIMO DE MEU PAI

Pouco importa se a vida transcorre como um desses filmes ruins que a gente assiste num final de tarde de sábado, por pura inércia, na falta do que fazer. O que vale é aquele conjunto de cenas que batem na porta da memória – muitas vezes desafiando a nossa capacidade de entender as sutis diferenças entre o que existiu e o que gostaríamos que tivesse existido.

Na minha infância, muitos anos atrás, para surpresa geral, meu pai, que era famoso por ser avesso a demonstrações de carinho pelo mundo (em geral) e pelos filhos (em particular), aceitou o convite de meu avô e foi com a família, em férias, para Morrinhos, no coração da Coxilha Rica (interior do município de Lages, SC).

A sua bagagem era composta por uma caixa de cerveja, cinco pacotes (vinte maços cada) de Continental (sem filtro), algumas varas de pesca, diversas garrafas de cachaça e uma infinidade de reclamações – meu pai, ao longo da vida, havia se transformado em um homem carente e com medo. Muito tempo depois descobrimos as razões de sua insegurança – mas, como sempre acontece nesses casos, era tarde demais para que pudéssemos construir uma ponte entre o que havia desmoronado e o que tenuamente nos mantinha ligados (esse conjunto de afetos que os burgueses chamam de família). 

De qualquer forma, aqueles dias no campo tiveram a vantagem de mostrar que ele poderia (se quisesse) estar próximo do nosso mundo: levava os filhos para tomar “camargo”, organizava cavalgadas, contava histórias, se enturmava. Ao entardecer, ajudava os empregados na lida com o gado. Tudo isso, é claro, com certo ar de tédio, entre longas baforadas de cigarro (freqüentemente um acesso na guimba do outro).

Uma noite, acordamos no meio da maior algazarra. Talvez fosse umas quatro ou cinco horas da manhã. Não sei. A velha casa da fazenda, toda de madeira, rangia. Era um tropel sem fim, como se uma boiada estivesse atravessando pelos quartos e salas. Assustados, levantamos da cama e fomos, em grupo, para a cozinha, onde o barulho era maior.

Quando a cena se desenhou nos nossos olhos sonolentos, descobrimos, com a mesma alegria de quem encontrou um tesouro, que meu pai e o capataz estavam bêbados. Corriam para lá e para cá, rindo inocentemente. Por um instante, pareciam ser tão crianças quanto nós. Perseguiam um tatu. Na maior farra, deixavam o animal escapar toda vez que o agarravam. A diversão estava em poder iniciar tudo outra vez. Estavam comemorando uma vitoriosa incursão de caça. Como fidalgos que voltam ao castelo, promoviam uma festa para mostrar o que haviam conquistado.

Meu avô, sem saber se brigava com eles ou se entrava na bagunça, nada fez (exceto balançar a cabeça, incrédulo). Minha avó, muito mais forte e determinada, não deixou a ocasião passar em brancas nuvens e, com um rápido e enérgico protesto pela falta de consideração pelo sossego noturno daquela casa, mostrou que não aprovava aquele tipo de comportamento. Depois, como um gesto de perdão, beijou o rosto suado de meu pai e foi tentar dormir outra vez. Minha mãe nada disse. Ela sabia que seria inútil. Por isso nos conduziu rapidamente para a cama e, com uma violência a que não estávamos acostumados, empurrou-nos para debaixo das cobertas. Esforço em vão, ninguém mais conseguiu pegar no sono. Bem, nós não dormimos – eles, depois de prender o animal dentro de uma caixa, lá na cozinha-de-chão, foram para os respectivos quartos e, sem a menor culpa, sonharam escandalosamente com a felicidade durante umas quinze horas.

Uns dois dias depois, o tatu se transformou no prato principal de um grande almoço – a comida estava ótima, com aquele sabor super-especial que a infância confere ao mundo.

Hoje, depois de todos esses anos, ao voltar o olhar para o passado, fico pensando se é possível acreditar na existência de finais felizes, mesmo para aqueles que não acreditam em finais felizes: ao retornarmos para casa, quando acabaram as férias, já não éramos mais os mesmos, embora o rosto de meu pai estivesse, outra vez, impenetrável e distante de todos nós.

segunda-feira, 28 de março de 2011

MEU ENCONTRO COM O DALAI LAMA

Agora que se passaram alguns anos e todas aquelas pessoas que estavam conosco se transformaram em algo, talvez saudade, talvez névoa, percebo que te ver foi importante. Não. Tenho certeza que foi mais do que isso. Dizer que foi "importante" nada mais é que reduzir os acontecimentos ao nível das palavras e todos nós sabemos que as palavras nunca conseguem "dizer" muitas coisas além das convenções.
Estavas lá, com tuas vestes vermelha e laranja, falando em um inglês macarrônico. Estavas lá, com tua voz serena, porém ansiosa; forte, porém cautelosa; pausada, porém cheia de calor; pronta para falar de coisas que, bem o sabes, não estávamos prontos para ouvir. Estavas lá, com teu corpo aflito, bambu ao sabor do vento, movendo-se constantemente, metáfora viva da inquietação. Estavas lá, com teus óculos fundo-de-garrafa, e percorrias a sala com o olhar em uma velocidade que me deixava confuso. Estavas lá. E eu estava contigo, indeciso entre fazer anotações e procurar um lugar para sentar, precisando escolher um lugar no mundo, ­ e tu, sem vaidades, já havias escolhido estar conosco.
Em determinado momento, abandonei o mundo organizado, sentei no chão, a uns três metros da mesa onde, em pé, conversavas conosco, e, em posição de lótus, como um humilde discípulo, deixei que tua voz e tua imagem invadissem a minha vida.
O Salão Negro do Congresso Nacional, em Brasília, foi pequeno para tua presença. Os jornais dizem que éramos 800 pessoas. Perdoe-me, mas discordo. Talvez os meus olhos estivessem cheios de luz e multiplicassem os que lá estavam. Talvez. Mas éramos muito mais. Muito mais. E quando o som de nossas mãos, batendo umas contra as outras, quebrou os outros sons e o aplauso se fez alegria e tivemos a certeza que tu estavas entre nós e quando vi teu corpo pequeno descendo as escadas, cercado por inúmeros seguranças, fui tomado por um sentimento muito forte, desses em que chorar é exprimir contentamento. Alguma coisa transbordou. Na minha frente um rapaz levantou-se, parecia querer guardar-te só para ele: não como um souvenir de viagem, mas como uma dessas experiências cujo valor está no viver com intensidade e paixão. Outra pessoa, educadamente, pediu-lhe que sentasse. Houve um instante de perplexidade e surpresa. Depois, como em um desenho animado, os dois sorriram e, com resignação, voltaram para seus lugares. E, mais tarde, quando tu falavas, eles olharam um para o outro e compartilharam da graça de estarem juntos, contigo.
No momento em que alguns políticos estavam discursando, lamentei não ter trocado as lentes dos meus óculos, antes da viagem. Embora estivesses tão perto, parecias tão distante. Mas talvez o problema fosse comigo e, ingênuo, acreditei, naquele momento, que ter novas lentes poderia ser uma boa razão para me impedir de cometer alguns desatinos. Foi então que o deputado federal Fernando Gabeira, usando da palavra, protestou contra a situação do Kosovo, contra a limpeza étnica, contra os bombardeios da Otan. Como em um insight tardio, percebi que a minha cegueira não dependia dos óculos e que, mesmo entre as trevas políticas, existe saídas, ninguém está sozinho. Gabeira disse, com outras palavras, que há situações no mundo que valem uma luta, que viver é ter objetivos, que a dor de nossos irmãos também é a nossa dor, e que há uma série de pontos de contato entre o Tibete, Iugoslávia e Brasil. Abaixei o rosto, envergonhado.
Quando tuas palavras vibraram pelo espaço e o teu rosto aberto em sorrisos nos cumprimentou, o clima tenso dissipou-se. E aqueles que estavam contigo retribuíram tua saudação, palmas das mãos unidas diante do rosto, uma leve curvatura do corpo. Com a determinação que caracteriza os que acreditam que a melhor forma de ação humana é semear a paz, evocastes os valores espirituais, o conceito de felicidade e a resistência pacífica. Em tua fala, sereno e profundo como o oceano (Dalai, em mongol), iluminavas as nossas mentes, falando sobre pequenos gestos de amizade, sobre o cultivar do amor e da compaixão até que possamos atingir a verdadeira essência de todas as coisas. E dizias que isso não será possível enquanto houver desigualdades sociais, opressão e pessoas que se recusam a construir relacionamentos de solidariedade com aqueles que precisam de ajuda.
Enquanto tua voz esculpia sentimentos em nossos corações, tuas mãos descreviam inúmeros arabescos, como se estivesses criando um cenário estético para a fé. E, isso me parece cada vez mais importante, estratégia de aproximação entre a mensagem e o aprendizado, entre a esperança e a verdade, entre o inominável e o sagrado.
Tua conferência durou 40 minutos e, ao final, afirmastes que és apenas um monge preocupado em divulgar o budismo e a unidade entre todas as religiões. "Quero dizer-lhes que irei dedicar o resto de meus dias a servir a humanidade como puder". Apesar dessa declaração de humildade, era possível perceber que o exílio é algo que te preocupa. O Tibete, invadido pelo imperialismo chinês, está presente em cada um dos teus gestos. E, de certa forma, tua peregrinação pelo mundo é forma de protestar contra esse arbítrio.
E então fostes embora, leve como o vento, e tentei, sem sucesso, me aproximar de ti. Outras pessoas também queriam a mesma coisa. Então deixei a multidão e fui até uma das janelas. Com o olhar fixo na imensidão do cerrado, percebi que havia, em todos nós, aqueles que estiveram reunidos naquele salão, um contentamento diferente: foi a forma com que Buda escolheu para nos abençoar.

(ESSE TEXTO, COM PEQUENAS ALTERAÇÕES,  FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL “A NOTÍCIA”, de JOINVILLE, SC, em 25/04/1999)

sábado, 26 de março de 2011

O GATO SUMIU!


O gato sumiu!, a empregada, ao telefone, anunciou a tragédia. E completou: O menino está lá embaixo, na garagem, procurando pelo animal!

Só faltava essa, disse para mim mesmo. Encerrei a conversa com uma promessa: Em quinze minutos estarei aí!

Era um desses dias comuns, plúmbeo, uma garoa fria encharcando a cidade. Na metade do caminho pensei que estava perdendo tempo, melhor era ir cuidar da vida, porque, francamente, não sabia em que poderia ajudar. Se o gato, gordo como sói acontecer com gatos castrados, escapou pela porta aberta e resolveu dar uma espiada no mundo, quem poderia fazê-lo desistir de tal aventura? Em todo caso, naquele momento de perda, movido pela solidariedade, lá fui.

Ao redor da mesa, após o almoço, todos tentavam evitar que as lágrimas escorressem pelo rosto. Havia uma tristeza genuína pelo desaparecimento de um dos “integrantes da família”. 

Na companhia do menino, fui procurar nas ruas próximas. Enquanto caminhávamos pela quadra, olhos atentos a qualquer movimento suspeito, conversamos sobre a possibilidade de algum morador do prédio, criança ou adulto, ter sequestrado o felino. Como sempre acontece nessas circunstâncias, não concluímos nada, inclusive porque pairava sobre nós outra possibilidade – tão terrível que em nenhum momento foi mencionada.

De volta ao apartamento, ficamos “esperando Godot” – ou algum milagre (que se não é a mesma coisa, é muito parecido). A mãe do menino, um pouco antes de sair para trabalhar, disse que iria confeccionar cartazes com fotos do bichano para distribuir na vizinhança.

Movidos pelo desespero, resolvemos revistar, outra vez, possíveis locais onde o gato poderia estar escondido: dentro dos armários da cozinha, nos guarda-roupas, nas áreas desabitadas do apartamento. Nos poços de ventilação e nas janelas imaginamos vôos e outras bobagens – e nem sombra do animal.

Em algum momento, a voz do menino interrompeu as buscas:

Você está ouvindo?

O que?, perguntei.

Um miado.

Cético, pedi que ele parasse de imaginar coisas e se concentrasse na procura.

Não estou sonhando, eu ouvi o gato, e me olhou, cheio de esperança. 

Onde?

Daquele lado.

Ficamos em silêncio, esperando que alguma coisa mágica acontecesse, um desses instantes típicos de cinema, a comprovação de que a vida, apesar de provas em contrário, é um encanto.

O som, fininho, abafado, foi invadindo o ambiente. De repente, tudo fez sentido. O menino se ajoelhou diante de uma das camas, ergueu a colcha e abriu a gaveta escondida ali embaixo. Ato contínuo, começou a gritar de alegria. Dormindo dentro da gaveta, o gato somente despertou quando ouviu que estavam chamando por ele. Aquele que até então estivera desaparecido, e que se chama Gato, espantado por tanto barulho, bocejou.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O BÊBADO E A FILOSOFIA

Na pracinha, em uma dessas manhãs de inverno.

Bêbado como um gambá (se é que os gambás ficam bêbados), o homem atravessou a rua. Estava com a camisa fora das calças. Os sapatos provavelmente haviam sido engraxados pela última vez no século passado.

Parou em frente do monumento em homenagem a um dos próceres do município. Depois de alguns segundos em silêncio, ergueu o olhar até os olhos (!!) da estátua e, com a voz enrolada, falou:

— Você sabe, eu sempre fui sincero, sempre detestei o que é errado. Tenho tentado fazer as coisas certinhas. Todas as coisas certinhas. Isso ninguém pode negar, eu sou pelo certo. Sempre fui. Mas, você tem que entender que, às vezes, a vida não segue a melhor trilha. Raras vezes acontece exatamente o que nós gostaríamos que acontecesse. Na verdade, viver é, quase sempre, uma forma de decepção. É isso aí, gostei, hoje tô meio filósofo, a vida é sinônimo de decepção. Você, eu, o Zé, até o dono do botequim, todos nós precisamos aprender a desistir dos sonhos, embora todos os professores dessa imbecilidade chamada vida gastem litros de saliva para nos ensinar que sem eles, os sonhos, não dá para continuar na luta. Você é testemunha, como eu já te disse, de que eu sempre procurei fazer o melhor. Esse é o meu objetivo de vida. Sempre foi. Mas, que porcaria!, às vezes querer fazer o certo, ou melhor, fazer o certo não é o suficiente. Não é o suficiente. Eu estava ali, naquele boteco, aquele ali, tomando o meu traguinho matinal, aquele indispensável pra calibrar a máquina, quando percebi que toda a minha vida está se perdendo, se perdendo. Fiquei horrorizado. (Aqui, o bêbado fez uma pausa longa. Ficou olhando para a estátua, que pareceu retribuir o olhar – como se não estivesse a entender o que estava acontecendo). Por falar nisso, no horror, alguém já te disse que você tem uma cara de peixe morto? Aposto que não. A hipocrisia é uma doença incurável. Quem é que quer ser sincero, nos dias de hoje? Ninguém. É isso, ninguém mais quer ser honesto. Não tem importância, viver é aprender a nadar nesse mar de indiferenças. Quer saber de uma coisa? Essa conversa está muito chata: vá plantar batata no asfalto, com enxada de borracha! 

Em seguida, depois de cuspir no pedestal da estátua, foi embora.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A história incerta dos cinco reis gordos,

- Três reis magros?
A voz enrolada de Antenor só servia para confirmar o óbvio: ele estava na "maior água". E não poderia ser diferente depois de um monte de cervejas e de incontáveis dois-dedinhos - o mínimo e o polegar abertos ao máximo! - de uma amarelinha especial, puro artesanato tipo exportação, made in Luiz Alves.
- Eu disse magros? Hic! Os caras nem reis eram, quanto mais magros!
Eduardo, que era o compositor oficial da escola de samba do bairro, havia tido uma idéia formidável para o enredo do próximo carnaval. E estava tentando explicar para alguns amigos, sem muito sucesso, o seu projeto, quando foi interrompido por Antenor. Claro que não gostou e, com um olhar de desdém, fez a pior pergunta possível na situação: - Desde quando você entende desse tipo de assunto?
- Eu? Hic! Sei tudo! Tudo!
E, para espanto geral, se aproximou do grupo, puxou uma cadeira de metal, dessas que são propaganda de bebida, pediu para o dono do boteco outra dose "daquela que matou o guarda", e começou a contar a sua versão da história.
"No princípio era, o que que era mesmo?, ah, sim, o verbo e o verbo se fez noite de lua cheia, um gato preto cruzou a estrada, quando aquele bando de amigos, cinco, entendeu? cinco, esqueça essa história de três, bem, eles saíram de uma daquelas famosas tendas no meio do deserto, sabe?, uma daquelas, luzinha vermelha e tudo, e, cara, foi uma noitada bárbara, hic, o mínimo que rolou foi o super-strip-tease de Sherazade, que deu o bolo no sultão, nem toda noite é ideal para ficar sussurrando fábulas bobas no ouvido de um velho senil, vocês não acham?, hic! A garota começou com a dança dos sete véus e depois, por Alá!, desvelou até a alma, uma loucura! Isso pra não falar de... pô, cara, Maria Madalena era afamadíssima nas sutilezas do negócio (alegrava corações, ou equivalentes, e esvaziava bolsos, ou equivalentes) e às vezes fazia ponto naquele oásis, os beduínos assanhados com um material de primeira, que a moça embora fosse do ramo não descuidava da forma física, banquete pra quatrocentos talheres - no mínimo! Pois bem, mas não vamos muito longe nessa lengalenga e como eu estava contando, hic, o pessoal saiu da tenda, logo depois do show da pop star Salomé, que cantou os seus últimos sucessos, inclusive o inesquecível clássico "A Cabeça de João Batista é Minha". Isso foi lá pelas cinco da matina, hic, se é que podemos confiar no urro matinal do camelo-despertador. Claro, a turma já estava pra lá de Marrakesh (uma grande cidade, hic!, diga-se de passagem), e estava vendo as coisas meio assim em duplicata, tá me entendendo?, tudo multicolorido, mór festerê. Era só alegria! Por isso é que se fez um silêncio inesperado, quando escutaram, na direção da estrela do Oriente, a criança chorar. Belchior, que alguns séculos depois seria conhecido como um grande cantor nordestino, era o que estava em melhores (ou piores, depende do ponto de vista) condições para avaliar a situação. Por estas e outras, hic, é que foi nomeado embaixador plenipotenciário para averiguar os fatos e fazer um relatório completo aos demais, inclusive para o grande campeão do rali Paris-Dakar, Mohamed Ali-Babá, que justo naquele momento, hic, estava sonhando acordado nos braços de Savannah (como todos nós sabemos, mais tarde ela se transformaria em atriz do cinema pornô - mas... convenhamos, essas notas espetaculares, típicas da revista fajuta "Rostos" ou será "Faces"? nada têm a ver, a haver com a nossa história!). Enquanto cantarolava um mantra contra o medo, o nosso anti-herói se aproximou da estrebaria onde várias pessoas, além de inúmeros animais (ou será que foi o contrário?), se aqueciam ao redor de uma pequena fogueira. Foi recebido por diversos gritos entusiasmados: Shalon!; Salamaleicon! (sic); Paz e amor, bicho!; Qualéquiéatua, bróder? (sic!);... E como, naquela tchurma, corria um vinho maneiro, hic!, foi se chegando, assim como quem não qué nada, mas se pintar um lance legal a gente tá aí prisso memo, mermão, tá sabendo? Enquanto isso, o resto do pessoal ficou a esperar pelas novas ­ que não vieram, novas ou velhas. Melquiades, que era do tipo pavio curto, perdeu a paciência que não tinha, e na companhia de Isaac, foi à luta, digo, foi ver o que estava acontecendo. Encontrou o desaparecido em decúbito dorsal, vestindo organdi azul. Hic! Epa, acho que embolei o meio-de-campo! Apaga essa história de decúbito dorsal, hic, e organdi rosinha, pô, cara, isso pega mal e não está mais aqui quem falou, tá sabendo? Belchior estava lá, alegre e faceiro, tomando um Chateau Rothschild, safra de mil novecentos e sei lá que ano, numa fina taça de cristal italiano, lapidado, cantarolando o seu medo de avião. Por isso mesmo é que quase foi lapidado, o tijolo passou a uns cinco milímetros da orelha esquerda, a big shot, como dizia aquele coronel americano especialista em segurança nacional e que ancorou em Pindorama, hic, sutilezas do final dos anos 60, hic, repressão também é cultura, hic, manjou o potencial do potentado? Não sei não, acho que o cara devia se inscrever em um desses concursos de tiro ao alvo, ganhava fácil the first prize, não tenho dúvidas. E, se corresse algum por fora, quem sabe salvasse um pouco das nossas, perdão, das minhas dívidas, hic. Viver é perigoso já anunciava um personagem do velho Guima, cês tão lembrado? Para falar em lembranças, onde é mesmo que eu estava na história dos gordos? Os cinco reis gordos. Ho, ho, ho, ho, ho! Hic, hic, hic, hic, hic! Ah, sim, o tijolaço! Pois é, seu Mané, o Belchior havia se enturmado, uma odalisca aqui, uma musiquinha ali, bandejas de quibe e tabule sendo servidas para os convivas, e como já estava meio chumbado, hic, ou melhor, hip-hip-hurra!, foi ficando pelos cantos do recinto, mamando o seu alcoólico suquinho de uva, sem lembrar dos outros que ficaram esperando por alvissareiras notícias. Baita irresponsabilidade, concordo. Só voltou ao mundo real quando sentiu o tijolo tirando fino da orelhinha que mamãe (a dele!) beijou e passou talquinho. Na hora que entendeu que o que estava acontecendo não era nenhum cafuné, sentiu um frio na barriga e aquela sensação só possível em quem chega ao cinema depois que o filme já começou e, sem escolha, demora uns dez minutos para tomar pé do que está acontecendo na tela. Nesse intervalo, Melquiades encontrou-se com um velho conhecido, o Aderaldo, o ceguinho Aderaldo, célebre cantador da famosa banda de rock "Pilatho's Guilt". Trocaram figurinhas e fofocas. Hic. Mais fofocas do que figurinhas, if you understand me. Hic. Saíram coisas do balacobaco, podes crê!, inclusive as últimas na corte de Herodes, o Antipático, que agora estava cheio de idéias, hic, estranhas, um medo pânico e que as profecias do Livro de Nostradamus se cumprissem. Como o final do mundo ainda vai demorar, hic, e eles não estavam com pressa, o melhor caminho para curtir a vida foi chamar a turba, até porque estava quase começando o happy hour e ia haver uma canja com o Zorba, a cueca, perdão, houve um engano, eu queria dizer: Zorba, o grego, o dançarino de ballet mais famoso da antiguidade. "Delírios Espartanos", o seu último show é imperdível - of course. Pois é, happy hour às seis horas da manhã, hic, vê se pode? Mas, nem ligue, porque se non é vero, é bene trovatto, tem essas bossas de fusos horários, hábitos culturais e a vontade insaciável de acabar com aquele horrível gosto de guarda-chuva na boca. A humanidade está três drinks abaixo do normal e o motivo daquela reunião social, uma criança recém-nascida, parecia até estar gostando do agito, havia há muito parado de chorar e até um certo abanar dos bracinhos era possível ver lá dentro da manjedoura, embora fosse hora de criança estar dormindo - mas quem conseguiria isso no meio daquela algazarra? E aproveitando o momento, hic, os cinco bêbados, bêbados?, não, os cinco gordos - cara, só de pensar em transportar algum deles tinha dromedário pedindo aposentadoria antecipada! - pois é, os cinco gordos, alegres como só podem ser os gordos, hic, ao sentirem, no ar, um cheiro de churrasco (vários pombos estavam sendo imolados em augúrio ao parto bem sucedido), resolveram ofertar para o infante alguns presentinhos, meras lembranças de circunstância. Belchior entregou um CD com os seus maiores sucessos; Mohamed, um talismã de marfim, com poderes afrodisíacos; Melquiades, uma coleção completa dos discursos de Moshe Dayan; Hic, Isaac, uma coleção completa dos discursos de Yasser Arafat; e Ananias, que até agora não havia sido mencionado nesta história, entregou, com toda pompa e circunstância, uma pequena caixa de cobre com enfeites de jade - recomendou que a caixa só poderia ser aberta quando o garoto atingisse a maioridade (duas semanas mais tarde, quando o menino foi viver, junto com seus pais, na Galiléia, a caixa desapareceu no meio do deserto e o mistério sobre o que dentro dela havia ainda perdura nos dias de hoje). Depois, aproveitando o nascer-do-sol, que foi, hic, magnífico, houve um grande arrasta-pé, todo mundo balançando o esqueleto, saturday night fever, se me permitem a citação pseudomusical. Uma hora depois, quando acabou o estoque de, como direi?, energéticos, hic, e eu não estou falando de Gatorade ou de Flying Horse, essas bobagens que a juventude bebe para alimentar o espelho das vaidades. A solução, para tão triste sina, foi se despedir de todos, foi um prazer, hic, te conhecer, beijinho, beijinho e tchau, tchau, e chamar um táxi, perdão, vários táxis e partir para Jerusalém. Claro que a festa continuou por lá. Durante vários dias. Alegria, alegria".

O CASO DAS PIZZAS

Meio da semana. Início da noite. O menino já tinha tomado banho e eles, o pai e o filho, estavam famintos.

Misturando o “faz-de-conta” e a “necessidade-é-a-mãe-da-invenção”, resolveram organizar uma caravana expedicionária à geladeira. Dispostos a saquear impiedosamente tudo o que pudesse diminuir o imenso vazio que habitava os seus estômagos, a surpresa foi desagradável.

Encontraram apenas leite, iogurte e um pedaço minúsculo de queijo – tão minúsculo que não alimentaria um rato esfomeado.

O pai do menino ficou indignado. Na sua (dele) concepção, aquele era um dos momentos em que a injustiça mostrava a sua face mais cruel. Uma crueldade capaz de indignar Atila, o rei dos Hunos!

Sem poder contar com o carinho opressor da esposa (que estava viajando), o pai olhou para o menino e decretou:

– Heróis não se apertam nesse tipo de situação!

O filho, do alto dos seus três anos de idade, aproveitou a deixa e, antes que o pai começasse a vasculhar os armários, à procura de uma embalagem de macarrão (quase) instantâneo, gritou:

– Papai, quero pizza!
 
Um raio de alegria brilhou nos olhos da dupla dinâmica. Não se pode dizer com segurança qual deles chegou primeiro ao telefone. Utilizando-se da “suave violência sacrossanta do pátrio poder”, como diria Umberto Eco, o pai afastou o rapazinho, discou o número da pizzaria e aguardou. Depois que tocou diversas vezes, ouviu uma gravação. O serviço estava suspenso, naquele dia, em conseqüência do descanso semanal dos funcionários. Sem saber se era um caso de incompetência comercial ou apenas um engano, ele ficou atônito.

Procurou no catálogo telefônico outro número. Enquanto discava lembrou que... Bem, lembrou do passado. E alinhou mentalmente as queixas que tinha contra as pizzarias. Eliminou duas ou três pela costumeira demora; outras caíram na lista negra pela ausência de qualidade. Ao final, não sobrou nenhuma. Quer dizer, sobrou a fome, que − a cada instante − aumentava vorazmente.

Com o telefone na mão, olhou para o filho e pensou na falta de sorte. Desesperado, ligou para um dos mais famosos restaurantes da cidade. Pensando no saldo negativo no banco, aguardou a chamada ser completada. Uma voz feminina furiosa emitiu um ríspido “aguarde um pouco”. Em seguida, em lugar de uma dessas musicas de elevador que costumam aborrecer as vítimas dos serviços de tele­entrega, ouviu trechos de uma interminável discussão. Sua vontade era desligar, mas não conseguiu. A imagem do prato de comida estava fixada na mente. Além disso, o menino, impaciente, dizia, aos berros:

– Pai, tô cum fomi!

Finalmente, alguém atendeu a ligação. Com visível irritação, a mulher anotou o pedido e garantiu a entrega em quarenta minutos. Considerando que a distância entre um local e outro, a pé, era de uns cinco minutos, ele julgou que esse era um prazo justo. Enquanto aguardava, fez um mini-sanduíche de queijo, dividiu com o filho, ligou a televisão e assistiu mais um capítulo da “outra” novela.

O tempo passou. Uma hora e meia depois, tocaram o interfone. Era, finalmente, a pizza: embrulhada em duas bandejas vagabundas de papelão, com um preço muito superior ao que havia sido combinado ao telefone, e com sabores diferentes aos que haviam sido pedidos.

Ele aceitou o pacote, pagou – incluindo uma generosa gorjeta – e comeu, pedaço a pedaço, um pouco do seu orgulho. Naquelas alturas do campeonato, a fome desculpava tudo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

Certa manhã, Rafael acordou com dor de cabeça, uma ressaca infinita. Sem paciência para fazer o café, vestiu a roupa e foi para o trabalho. No meio do caminho parou em uma lanchonete. Copo de leite e pastel. O leite estava frio e o pastel era puro vento.

Para não forçar a barra, antes de decidir se reclamava da qualidade dos serviços ou se ia embora, começou a contar até dez. Lá pela altura do seis, a porta se abriu e a mulher entrou. Sentada em uma das banquetas do balcão, quase ao seu lado, pediu café (com adoçante) e um sanduíche. A voz, quase um sussurro, era puro veludo.

Foi amor à primeira vista – ou será que Rafael ficou cego com a sua (dela) presença? De qualquer forma, a moça era um conjunto de emoções que deslizavam na direção da loucura. Cada centímetro cúbico daquele corpo equivalia a milhares de toneladas da mais instável nitroglicerina. Vestia uma “mini” minissaia. Quem é que conseguiria resistir àquele pedaço de mau caminho? Ou melhor, de ótimo, excelente, fantástico, perigoso caminho. Os olhos de Rafael brilharam.

Um brilho, digamos, libidinoso. Alguma coisa ancestral, uma loucura bárbara, a alquimia da insensatez irrompendo por todos os poros. Em seguida, teve o corpo sacudido por uma descarga elétrica em forma de desejo. Nesse instante, esqueceu das crueldades da vida e deixou os olhos passearem pela paisagem que exprimia a mais perfeita obra de arte que Deus colocou no mundo. Ciente de que as palavras são apenas uma forma desajeitada e primitiva de exprimir a emoção, sentiu−se como um burguês semi−letrado diante de um Van Gogh ou de um Renoir: adoração total.

O delírio só terminou no instante em que percebeu que ela estava diante do caixa, pagando a conta. Tentou alcançá-la e esbarrou em um gordo que vinha em sentido contrário. Quase brigou com o sujeito. Quando conseguiu chegar até a porta, ela estava entrando em um taxi – que foi embora em alta velocidade. Remoeu a imagem e o desencontro.

Armado da mais doce e infinita paciência zen, Rafael fez da vida uma busca incessante pela mulher desaparecida. Três anos e nada. Voltou dezenas de vezes até a lanchonete. Esteve em todos os lugares possíveis e imagináveis – bares, restaurantes, universidade, centros espíritas, circos, hipódromos, teatros alternativos, desfiles de moda: tudo inútil, sem sentido, sem a resposta que necessitava.

Um dia, caminhando por uma rua pouco movimentada, perto de um parque, percebeu uma mulher parada na esquina. Parecia ser aquela que estava destruindo o seu sossego: o mesmo corpo, as pernas esculturais, o olhar faiscante das princesas. Aproximou-se devagar.

Ficou observando-a, na expectativa que fosse outra. Ao mesmo tempo, as palavras secaram em sua garganta, o existir era um deserto – e o gosto de areia impediu que pronunciasse um único som.

Ela percebeu o interesse e perguntou:

– Vamos até o meu apartamento? Por cem reais nada poderá impedir a nossa felicidade. Vamos?

Surpreso, Rafael teve a nítida impressão de que o mundo estava desabando. Cheio de pudores, pensou em fugir o mais rápido possível. Antes, olhou mais uma vez para a garota: queria confirmar o que já era uma certeza. Depois, como uma criança desamparada, se deixou conduzir pela mão até um edifício no meio da quadra.           


terça-feira, 22 de março de 2011

VINTE FRASES ESCOLHIDAS

1)      Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. (H. L. Mencken)
2)      Todo dia leio cuidadosamente os avisos fúnebres dos jornais; às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas. (Millor Fernandes)
3)      Não se pode confiar nas mulheres. Uma delas pode estar sendo sincera com você. (Douglas Ainslie)
4)      Muitos desejam me matar. Outros, passar uma horinha conversando comigo. A lei só me protege dos primeiros. (Karl Kraus)
5)      Perdoamos facilmente nos amigos os defeitos que não nos incomodam. (La Rochefoucauld)
6)      Só nos tornamos cúmplices da vida quando dizemos – de todo coração – uma banalidade. (Emil Cioran)
7)      A vida é o que acontece enquanto estamos fazendo planos. (John Lennon)
8)      Só há pouco descobri que meu grande problema é um desejo intenso de voltar ao útero. Qualquer útero. (Woody Allen)
9)      O segredo do sucesso é ofender o maior número possível de pessoas. (George Bernard Shaw)
10)   Mostre−me um herói e escreverei uma tragédia. (Scott Fitzgerald)
11)   Em certas circunstâncias, um palavrão provoca um alívio inatingível até pela oração. (Mark Twain)
12)   Os solteiros ricos deveriam pagar o dobro dos impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes que outros. (Oscar Wilde)
13)   Deus fez o homem e disse: "Posso fazer melhor". Então fez a mulher. (Adele Rogers St. Jonhs)
14)   Prefiro os canalhas aos imbecis. Os canalhas, pelo menos, descansam de vez em quando. (Alexandre Dumas, filho)
15)   Sabe o que significa voltar para casa à noite e encontrar uma mulher que lhe dá amor, afeto e ternura? Significa que você entrou na casa errada, só isso. (Henny Youngman)
16)   Nunca odiei um homem o suficiente para lhe devolver os diamantes. (Zsa Zsa Gabor)
17)   Todas as tragédias terminam em morte e todas as comédias em casamento. (Lord Byron)
18)   Atrás de todo homem bem−sucedido há uma mulher muito espantada. (Maryon Pearson)
19)   Matar vacas sagradas resulta em ótimos bifes. (Dick Nicolosi)
20)   As pessoas não param de confundir com notícias o que lêem nos jornais. (A. J. Liebling)

segunda-feira, 21 de março de 2011

CONVERSA DE BOTECO

Para início de conversa, é preciso saber distinguir entre conversa de boteco e conversa de bêbado.

Conversa de bêbado, como todo mundo sabe, não tem dono.

Conversa de boteco é outro departamento. É aquele momento solene − e põe solenidade nisso − que acontece todo sagrado final da tarde, quando os homens, depois do trabalho e um pouco antes de enfrentar a megera, outrora denominada “meu amorzinho”, resolvem molhar a palavra com uma cervejinha, uma cachacinha com butiá ou, Deus nos livre!, em caso de doença grave, guaraná diet.

A turma se reúne em torno de uma mesa, enquanto o tempo e as garrafas vão passando. Os fregueses mais "caseiros" bebem, no máximo, duas doses e vão embora. Os outros, raramente querem ir para casa. E isso significa que estão sempre a pedir “mais uma” – que, nas palavras do sempiterno filósofo Rogério Castro, “enquanto houver espírito de luta e perseverança será sempre a antepenúltima”.

Nesse clima de amizade e descontração, a conversa rola leve e solta, sem compromissos com o relógio. Depois dos inevitáveis comentários sobre futebol, dinheiro e as desgraças do noticiário, alguém sempre acaba contando uma história de mulher. Perdão, mulher em conversa de boteco nunca é apenas “mulher”. “Mulher” é a dos outros, as feias ou aquelas que a gente tem que agüentar em casa e não consegue trocar por duas de 20 anos. Mulher de conversa de mesa de bar é “mulherão”, banquete para 500 talheres, pôster central da Playboy, no mínimo.

Semana passada, Honório contou o caso da mulher do aviador. Aviador? Sim, mas, para evitar confusões desnecessárias, vamos logo esclarecendo o básico: era aviador de receitas óticas. O único “avião” que entra nesta história é a sua esposa.

Pois é, o marido de Claudinha era aviador de óculos. De tanto ajudar no conserto da visão dos outros, Heládio, esse era o nome do corno, acabou esquecendo que deveria olhar com mais atenção para dentro da própria casa. Parte desse descuido se explica pelo “fundo de garrafa” que ele precisava usar, sem o qual não enxergava um palmo diante do nariz. 

Aproveitando essa falta de visão, metade da população masculina da cidade provou de intimidades com a esposa de Heládio – inclusive o padeiro, que era suspeito de não gostar de “pegar na massa”.

Tudo ia muito bem, até uma tarde de agosto. Heládio estava comprando um imóvel. No cartório, lembrou que havia esquecido alguns documentos em casa. Dois segundos após abrir a porta, ele (que era quase cego, mas compensava a deficiência com excelente audição) ouviu tortuosos acordes da sinfonia do amor. Claudinha estava na cama – com outro!

Almas mais sensíveis provavelmente pensarão que essa história tem “cheiro de tragédia”. Nada disso. Ao entrar em casa, Heládio derrubou várias cadeiras na cozinha. Com esse barulhão, avisou ao casal que estava na hora de fazer um pequeno intervalo na festinha. Para evitar visões inconvenientes, deixou os óculos em cima da mesa e foi até o quarto beijar a esposinha amada. O amante, que estava em trajes de Adão, e naquela situação nada podia fazer para evitar o clichê, escondeu-se embaixo da cama.

Heládio explicou para Claudinha a visita inoportuna, pegou na gaveta da mesinha de cabeceira o envelope com os documentos e disse: “Você anda muito cansada, meu amor. Continue deitada, você precisa recuperar as energias”. E foi embora. O amante, que não havia perdido as energias, voltou para cima da cama e... Por favor, não sejamos indiscretos.

Resumo da ópera: Heládio, que nunca mais apareceu em casa durante a tarde, está cada vez mais apaixonado por Claudia. Quem conhece o casal diz que eles são felizes.

sábado, 19 de março de 2011

PAI E FILHO VÃO AO CINEMA

 Fomos assistir um desses desenhos da Disney. Despesas por minha conta, apesar da conta bancária assinalar níveis próximos da falência. 

Como é de conhecimento geral, sair com filho pequeno implica em carregar mochila com o básico: muda de roupa, sandália, salgadinhos diversos e, talvez o item mais importante, um urso de pelúcia (no caso, o Godofredo, mundialmente conhecido como “Godô”). 

Em ritmo caracol (carregando a casa nas costas), estávamos quase chegando à bilheteria, quando... Um pequeno obstáculo: comida. Criança sempre está com fome! Depois de “nutritivo” lanchinho, o cinema. Ingressos na mão, parada obrigatória na bomboniere (balde de pipocas, chocolate e refrigerante). 

Quando, finalmente, sentamos nas poltronas e joguei a mochila no chão, sobraram alguns segundos para olhar a plateia. Claro, milhares de crianças. E... Oba!, centenas de mães. Algumas bem bonitinhas. Uma pequena compensação para essa vida de pa(i)trocinador!


Nesse momento, o menino começou a me contar uma história comprida sobre alguma coisa que aconteceu na sua escola. Confesso que não prestei muita atenção. Meu pensamento estava distante, em um tempo já perdido, quando morávamos juntos e a dor era apenas um trecho tolo de um romance de segunda classe.  

A salvação veio com o apagar das luzes e o início da sessão. Ao mesmo tempo em que a tela era invadida pelas cores da projeção, retirei um lenço do bolso e, fingindo limpar os óculos, sequei os olhos úmidos. E − que remédio? − mergulhei nas pipocas, aquilo tudo estava me deixando com fome!

Uns quinze minutos de projeção e o primeiro problema: “pai, quero fazer xixi!”. Fomos procurar o banheiro. Na volta, ao tentar localizar o nosso lugar, não vi o pé de uma senhora. Constrangido, pedi desculpas. 

O segundo problema foi quase imediato: com o menino entupido de pipocas, a sede era uma questão de tempo. Fui buscar refrigerante. O que se seguiu pode parecer brincadeira. Não foi. Pisei, outra vez, no pé daquela adorável criatura. O palavrão que ela pronunciou foi ouvido no outro lado da cidade. Pedi perdão, novamente. Na volta, tomei o maior cuidado para não repetir a cena. Mas levei o troco, ou melhor, uma rasteira. Só não beijei o chão por pouco, muito pouco. Coisas da vida, pensei, enquanto tentava enxugar as mãos molhadas de refrigerante.


Depois disso, seguiu-se um período de assustadora tranquilidade. As aventuras da tela foram superiores às desventuras da vida. Com frio, ele pediu para sentar no colo e assim, deitado no meu peito, continuou se divertindo com as trapalhadas que estavam acontecendo na tela grande. Foi fantástico sentir os meus braços em torno do seu corpo, as mãos acariciando-lhe o rosto e os cabelos. 

Terminado o filme, fomos comer pastel, tomar sorvete, ver as lojas (na livraria demorei uma eternidade, reclamou o menino).

Quando voltamos para casa, estava escurecendo. No ônibus, abraçado ao Godô, o menino dormia. Desejei poder repetir aquele dia outras vezes. 

sexta-feira, 18 de março de 2011

SOLIDÃO URBANA

Naquela tarde ensolarada, dentro do ônibus urbano, condenado a vestir roupa social, Antônio afrouxou a gravata (sonhando com a possibilidade de usar camiseta, bermuda e chinelos no final de semana). Embora o ambiente fosse opressivo (Antônio, dentro do ônibus, sempre se sentia mais apertado que sardinha em lata), aproveitou a oportunidade para filosofar um pouco: fez, para si mesmo, um breve balanço dos malabarismos necessários para driblar as misérias da condição humana.

Essa, digamos, divagação foi interrompida por um alvoroço, lá no fundo da “circular”.

Um rapaz, aproximadamente uns 20 anos, sem qualquer motivo aparente, começou a cantar. A voz era desafinada, alternando momentos de calma e de agitação. Os versos da música eram ininteligíveis. Talvez fosse uma espécie de inglês macarrônico, talvez fossem palavras similares às que escutava, um fio escorria do seu ouvido. Foi isso o que Antônio imaginou estar acontecendo.

A primeira vez que o rapaz cantou, quase todos os passageiros foram tomados por um sentimento de benevolência – a forma com que as pessoas “normais” desculpam os distraídos (evidentemente “aquilo” só podia estar acontecendo por distração).

Na segunda vez, as reações mudaram. O que antes era tolerância se transformou em irritação: várias reclamações foram ouvidas. O cobrador também se somou aos descontentes e fez um comentário, em voz alta, sobre as pessoas que não possuem “desconfiometro”.

O rapaz continuou a cantoria, como se quisesse causar confusão, como se ambicionasse preencher o desconforto. Parecia estar em outra freqüência, em outro mundo – os óculos escuros que usava era um isolante contra o ódio (câncer que estava corroendo as entranhas dos demais passageiros).

Uma moça chegou a diagnosticar:

— Esse cara deve estar com muitos problemas. Uma pessoa, quando faz esse tipo de coisa, só pode estar muito carente, na beira do desespero. 

Uns dez minutos, quando o ônibus chegou ao terminal, o rapaz desembarcou e sumiu no meio da multidão. Antônio, por algum motivo que até hoje ainda não conseguiu entender, passou o resto do dia ouvindo blues.

quinta-feira, 17 de março de 2011

PAVANA INÚTIL PARA UMA CASA AMARELA

Assim como as pessoas, as casas morrem. Cumprem suas funções e desaparecem de nossas vidas. Sobram as lembranças, as fotografias e alguma coisa imprecisa, talvez história, talvez saudade. Ao contrário dos seres humanos, ninguém chora pelas casas que desaparecem da paisagem urbana. Há quem julgue que são apenas utilitários, objetos descartáveis — invólucros de nossas intimidades. Paredes, portas e janelas seguem um calendário de perplexidades, um período segmentado da ilusão.

Assim como as pessoas, as casas morrem. E os médicos estão sempre ausentes. Esgotado o existir, nada mais há para se fazer. Mesmo assim, ficarmos sentados, olhando o desmoronar (por desespero ou impotência, ficamos).

Sem poder recorrer a ambulâncias, convênios, planos de saúde, autoridades políticas, sem poder chamar por engenheiros, arquitetos, pedreiros, mestres-de-obras, empreiteiros, a esperança de que possamos salvar a casa condenada escorre pelo vão dos dedos como um punhado de areia ou as pérolas de um colar que arrebentou.     

O som das panelas na cozinha, aquelas conversas na sala durante o café da tarde, os retratos na parede, a folhinha amarelada com a estampa do Sagrado Coração de Jesus, a cristaleira com os vidros de compotas, os sonhos que cobriram as noites intermináveis, o amor que rimou tantas vezes com estrelas e paixão — quem nos devolverá esses instantes perdidos?

Em momento impreciso, muito tempo depois, provavelmente por distração, alguém se lembrará das casas mortas. Talvez ao ouvir alguma citação ocasional, um lembra daquele dia? E a imagem retornará intocada, bonita, como se ainda houvesse sangue circulando por suas veias, como se o oxigênio ainda estivesse a lhe soprar, pelos pulmões, a vida. Em seguida, quando entendermos que a vida está envolta por esse turbilhão de perdas que estamos construindo para os nossos filhos, restará o conviver com ruínas e saudade.

As caixas verticais substituem as casas mortas. Semelhantes aos nossos pais e avós, as casas antigas incomodam, atrapalham. Não há mais lugar para essas peças anacrônicas. A modernidade requer substituí-las por algo mais funcional. Prédios, apartamentos, lojas: paredes separando sentimentos. Desconhecidos e insanos se agrupam em torno da solidão e levantam escudos de proteção: a indiferença. Ninguém conversa com o vizinho, na cerca dos fundos, perto da horta. Todos se encontram no elevador ou na garagem, a face carrancuda, o cumprimento protocolar, o medo de estabelecer algum tipo de intimidade.

Assim como as pessoas, as casas morrem. E, pelo mesmo caminho, segue a utopia. Homens e mulheres algemados em seus relógios, roendo os cadáveres das casas antigas. Cupins pós-modernos acreditando que felicidade é sinônimo de lucro. Nunca se preocuparão com a razão ou a aridez das transações financeiras – seus computadores conferem, através do código de barra, os estoques de afeto.

Em dia impreciso e distante, foi a vez da casa amarela. Nenhuma surpresa, apenas mais uma morte anunciada. Os especialistas diagnosticaram um câncer terminal em suas paredes e no telhado. A pintura estava descascada, as janelas de madeira precisavam ser substituídas, os tijolos revelavam as feridas. Ninguém queria a casa amarela. O poder público declarou que não tinha interesse. Nenhuma figura histórica morou na casa amarela. 

Diante do inevitável, o sol iluminando a mediocridade, um operário empunhou a marreta e, ao som da força, abriu caminho para uma nova edificação. A casa amarela foi esquartejada. Os entulhos, depois do necessário mise-en-scene, foram espalhados pela cidade, restos de uma vida transformados na poeira do esquecimento. O madeirame, os vidros, as telhas: fragmentos inúteis, lixo.

A casa amarela morreu. O tempo encarregar-se-á de soterrá-­­la na vala comum das ausências.

Apesar disso, contrariando a lógica, a casa amarela resiste. Quem passar por aquela rua sentirá a sua presença. Mesmo sem estar onde deveria estar, parece que ela, a casa amarela, nos chama para uma conversa, quer trocar segredos, pequenas bobagens, indiscrições só possíveis entre amigos. A casa amarela era alegria no coração.

Assim como as pessoas, as casas morrem. 

quarta-feira, 16 de março de 2011

ESTEVAM BORGES

Saudade é dor incerta. Basta um descuido e ela aparece. Traiçoeiramente.

Trabalhei com Estevam Borges (1928-­1999) por uns cinco anos, lá na Prefeitura.

No meu imaginário, ele sempre aparece sentado, atrás de uma mesa. Algumas vezes, a mesa é de boteco e ele está bebendo cerveja, em uma dessas tardes aborrecidas de sábado. Outras vezes, a mesa é a de trabalho e diante dele estão milhares de pastas de arquivos, revistas, recortes de jornais, livros – tudo espalhado em desorganizada ordem. Em uma mesa menor, ao lado, uma máquina de escrever pré-histórica – talvez fosse aquela onde ele redigia o boletim diário da Comunicação Social (definitivamente o pior serviço da repartição).

Nos momentos de folga, Estevam concedia generosos “dedos de prosa”. Com uma diplomacia muito superior àquela praticada pelo Itamarati, ensinava aos mais jovens alguns truques de sobrevivência na selva do jornalismo.

Uma de nossas conversas recorrentes era sobre a insensatez da programação de filmes, nos canais de televisão. Como naquela época a televisão a cabo não nos era acessível, compartilhávamos a convicção de que a Rede Globo travava uma conspiração contra os cinéfilos em geral e, mais importante, contra nós dois em particular. Bastava olhar a grade de programação nos jornais para confirmar as nossas certezas: em horários “assistíveis” só passava “bomba”; “filmaço” só no meio da madrugada! Para quem precisava “bater o ponto”, cinco vezes por semana, às oito horas da manhã (o nosso caso), era impossível (re)ver As Noites de Cabiria (Federico Fellini), A Malvada (Joseph Mankiewicz) ou O Tesouro de Sierra Madre (John Ford), entre tantas outras preciosidades.

Algum tempo atrás, numa dessas noites intermináveis, a Globo exibiu o melancólico Caro Diário (Nanni Moretti). Sem sono, cheio de sonhos, assisti ao filme bebendo coca-cola e comendo biscoitos recheados. Foi uma festa, apesar dos farelos espalhados pela cama e pelo chão do quarto.

Quando tudo terminou, lá pelas 04:30 hs da madrugada, não pude deixar de lembrar do Estevam Borges. E embora eu não acredite nessas coisas, tenho a nítida impressão de que ele também estava assistindo ao filme.